14/06/2026

Desde pequeno, Uninho tem uma relação visceral com os automóveis, sendo capaz de ouvir sua voz em sua cabeça. Ele nasceu dentro de um carro e perdeu a mãe nele também. Adulto, ele junta-se ao tio, Zé Macaco, um mecânico tarimbado, para resgatar relações humanas e mecânicas numa realidade assombrosa.

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Diretora de arte de mão cheia e diretora de filmes como o premiado curta Superbarroco e os longas Amor, Plástico e Barulho e Açúcar, a pernambucana Renata Pinheiro investe uma intensa energia na fábula futurista Carro Rei, vencedora de quatro prêmios em Gramado 2021: melhor filme, direção de arte, desenho de som e trilha musical. 
 
No cenário de uma Caruaru em que se veem mais automóveis e motos do que gente nas ruas, Renata cria um filme com um conceito estético bem-amarrado, com vários detalhes futuristas determinando o tom da história. Criando uma parábola política para um país obcecado por carros como símbolo de poder e ascensão social, ela centra seu foco na família formada por Marineide (Ane Oliveira), seu marido (Adélio Lima) e o filho, Uninho. Vivendo na mesma casa, está o irmão de Marineide, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), mecânico de automóveis.
 
A morte de Marineide num acidente provoca a ruptura do núcleo familiar, com a expulsão de Zé pelo cunhado para o ferro-velho no limite da cidade. Agora adulto, Uninho (Luciano Pedro Jr.) rompe com o pai, dono da frota de táxis Carroaru Táxis, para estudar Agroecologia. 
 
Reaproximados, tio e sobrinho empenham-se na reforma do carro destroçado no acidente que matou Marineide, simbolizando não só a própria reconstrução de seu vínculo do passado, como projetando uma perspectiva intrigante. O carro, afinal, mostra inteligência, pode falar e conversa especialmente com Uno, que tem essa capacidade de comunicação com a máquina desde pequeno.
 
O roteiro, assinado por Renata, Sérgio Oliveira e Léo Pyrata, imagina desdobramentos que remetem ora a Stanley Kubrick - na presença de uma máquina inteligente e potencialmente perversa, como o computador Hal, de 2001 - Uma Odisséia no Espaço - como à anarquia de Léos Carax em Holy Motors. E assim Carro Rei constitui um verdadeiro objeto não-identificado em sua fusão de fábula e comentário político-ecológico que situa uma possibilidade de resistência às máquinas modificadas e inteligentes num aditivo retirado da agricultura orgânica.
 
Não falta também o erotismo humano/máquina, materializado pelas participações da performer Mercedes (Jules Elting), em sequências de uma bizarra beleza - muito superiores, aliás, às cenas do mesmo teor de Titane, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2021.
 
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