Acordes de Aquarela do Brasil, clássico de Ari Barroso, ecoam (às vezes, cantada em inglês com uma letra diferente da que conhecemos) durante as mais de 2 horas da distopia-retrô Brazil: O Filme, de Terry Gilliam. As referências ao país, no passado, podiam parar por aí, mas o presente talvez esteja mais próximo do longa do que quando foi originalmente lançado, em 1985.
George Owell e seu 1984 são outros ecos que atravessam Brazil, com sua ideia de um Estado totalitarista que se vale da burocracia como ferramenta de opressão. O protagonista, Sam Lowry (Jonathan Pryce), é um burocrata destituído de ambição, numa vida cinzenta. Seu escape é nos sonhos, quando se encontra com uma bela jovem e um samurai metálico que tenta esmagá-lo. Quando ele, finalmente, encontra-se com a moça na vida real, ela é Jill Layton (Kim Griest), que ele desconfia ser uma terrorista.
Gilliam, que também assina o roteiro com o dramaturgo Tom Stoppard e Charles McKewon, não contém sua fantasia pessimista sobre um mundo sufocante, num caos ordenado do totalitarismo, cuja narrativa entra por diversos meandros elevando a posição de personagens secundários - como um homem, cujo ato de rebeldia é consertar coisas (Robert De Niro), ou a mãe de Sam ((Katherine Helmond), que vive marcada pelo ideal da beleza eterna.
Brazil é um filme anárquico não apenas no conteúdo – as coisas precisam ser destruídas para os problemas se resolverem – mas também na forma amalucada como Gilliam o filma, que parece ter mais a ver com os anos de 1960, do que com a década de 1980. É notório o embate que o diretor teve com a Universal Studios para conseguir lançar o longa da maneira como imaginou, evitando os diversos cortes e imposições dos produtores.
O resultado é um filme que, estranha e coincidentemente, tem muito a ver com o Brasil de hoje. A fantasia de Brazil é de um lugar sem respiro, consumido pela total falta de perspectivas e futuro. Nesse sentido, o sonho (e a arte, em certa medida) se torna um espaço de rebeldia.
