Max e Leo são dois irmãos mexicanos pequenos que acabam de atravessar a fronteira, com a mãe, para os EUA. Depois de muita dificuldade, ela consegue um emprego mas, sem condições de contratar alguém para cuidar dos meninos, ela os deixa sozinhos em casa o dia todo. Entre o tédio e a fantasia, eles irão enfrentar o amadurecimento.
- Por Alysson Oliveira
- 01/09/2021
- Tempo de leitura 3 minutos
Apesar de ser um filme de 2019, Los Lobos tem uma estranha e triste ressonância com o presente de isolamento e distanciamento social. Dirigido por Samuel Kishi Leopo, com tons autobiográficos, o longa mexicano é mais uma história triste que desmonta a falácia do sonho americano para os imigrantes que rumam para os EUA em busca de uma vida melhor.
Com roteiro escrito por ele mesmo, em parceria com Luis Briones e Sofía Gómez-Córdova, Kishi Leopo encontra um equilíbrio entre a melancolia do fracasso e a esperança, e conta a performance impressionante dos pequenos irmãos Maximiliano e Leonardo Nájar Márquez, nos papeis centrais de Max e Leo. Junto com a mãe, Lucía (Martha Reyes Arias, uma presença também marcante), os dois atravessam a fronteira com os EUA e se instalam na cidade de Albuquerque.
A língua é uma primeira barreira que a família precisa enfrentar. Apesar de seu inglês rudimentar, Lucía acaba se instalando um pequeno apartamento, que pertence a um casal de chineses idosos (Cici e Johnson T. Lau), que mais tarde se revelarão de grande ajuda, em especial para os dois meninos. Quando a mãe arruma um emprego, os dois irmãos ficarão o dia todo fechados em casa, seguindo algumas regras que ela deixa registradas no gravador portátil que carregam. As horas passam lentas, os garotos não têm distração, nem o que comer. A alegria é a chegada da mãe que traz alguma comida – às vezes, nada mais do que um pacote de salgadinhos.
O filme guarda suas semelhanças com o americano Projeto Florida, do americano Sean Baker, e, em especial, com o japonês Ninguém pode saber, de Hirozaku Kore-Eda, sobre crianças e seu processo forçado de amadurecimento – no segundo, um irmão mais velho precisa cuidar das outras crianças depois do desaparecimento da mãe. Tudo é visto, aqui, pelos olhos de Max e Leo, ou seja, a narrativa vem carregada de um estranhamento da inocência infantil, para quem os perigos parecem inexistir.
Sabemos pouco sobre o passado dessa família no México. Um diálogo aqui, outro ali, deixam escapar algo sobre o pai e sobre a vida pregressa à imigração. Nos momentos de maior solidão, os dois irmãos inventam uma fantasia na qual são como super-heróis em forma de lobos. Essas cenas entram em Los Lobos em forma de animação, o que ressalta o lado lúdico do escapismo dos dois meninos.
A fotografia, assinada por Octavio Arauz, é naturalista e, por motivos claros, está interessada em closes e planos mais fechados, que evidenciam o isolamento dos meninos – e mesmo de Lucía, num ambiente estranho a ela, angustiada por ser obrigada a deixar os filhos sozinhos o dia todo.
É inevitável que, mais cedo ou mais tarde, eles vão quebrar a principal regra imposta pela mãe: não sair do apartamento. Do lado de fora, a vida tem um pouco mais de energia, mas também perigos. Max faz novos amigos, os garotos que moram em outros apartamentos. Nessa jornada, ele encontrará amigos, inimigos e aliados. Mas Los Lobos não está interessado em criar vilões. Kishi Leopo traz à tona a dureza (e a doçura e esperança, também) da vida de todos e todas ali naquele mundo de imigrantes.
