02/07/2026
Suspense Drama Biografia

Casa Gucci

Filha do dono de uma transportadora, Patrizia Reggiani se casa com o grande herdeiro da marca Gucci, Maurizio. Ao lado dele e do tio, Aldo, ela será responsável por reerguer o império da moda. Porém, ao ser deixada pelo marido, resolve vingar-se.

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A famosa letra de Shallow, cantada por Lady Gaga e Bradley Cooper em Nasce uma estrela, poderia muito bem ser aplicada à personagem da cantora/atriz em Casa Gucci: “Diga uma coisa, garota. Você está feliz nesse mundo moderno? Ou precisa de mais?” Bem, Patrizia Reggiani, personagem da artista aqui, precisa de mais, muito mais. Estranhamente, o título da canção, traduzido como “Superficial”, também ressoa nas mais de 2h30 da verdadeira novela mexicana dirigida por Ridley Scott.
 
Parece mesmo uma novela mexicana, infelizmente, editada e confusa, com desenvolvimento de personagens sem muita coerência. Mas, de qualquer forma, para o bem e para o mal, Lady Gaga nasceu para viver essa personagem. Filha do dono de uma transportadora pequena, ela se casa com o dinheiro dos Gucci, ou melhor, com um dos herdeiros da famosa marca, Maurizio Gucci (Adam Driver), cujo destino trágico, mais do que conhecido, é anunciado no prólogo do filme. A questão fica: como chegar lá.
 
Scott, trabalhando com um roteiro de Becky Johnstone e Roberto Bentivegna, está interessado em contar a história da ascensão e morte de Maurizio, majoritariamente, pelo ponto de vista de sua viúva e assassina. Patrizia não mede esforços para elevar o nome da marca da família, cujo sobrenome adota como seu sem pudor. Enfrenta o preconceito do sogro, Rodolfo (Jeremy Irons), e cai nas graças do tio do marido, Aldo (Al Pacino, excelente aqui), que vê nela a pessoa com a visão de negócios parecida com a dele, para frustração (mais uma entre tantas) de seu filho Paolo (Jared Leto, absurdamente excessivo num personagem que serve de saco de pancadas cômicas).
 
Após assumir seu romance com Patrizia, Maurizio é expulso de casa pelo pai e vai trabalhar com seu futuro sogro, na empresa de transportes. Vivendo com dificuldades, apesar da fortuna da família do marido, a protagonista começa uma amizade peculiar com Pina Auriemma (Salma Hayek), uma cartomante de televisão que atende ligações e dá conselhos no ar, e de quem Patrizia nunca se afastará. A mulher será fundamental num plano de vingança.
 
A estrutura do filme carece de se aprofundar nos acontecimentos. Tudo é rápido e o desenvolvimento dos personagens não tem coesão. O casal de protagonistas, Maurizio e Patrizia, muda de personalidade no meio do filme, assumindo atitudes que não condizem muito com como agiram até então. Ele, um marido e pai gentil, doce e apaixonado, troca de mulher sem pudor. Ela, uma mulher de negócios e pragmática, torna-se uma figura consumida por um ciúme doentio.
 
Mas não há engano: Casa Gucci pertence a Lady Gaga, aqui totalmente distante da personagem que rendeu uma indicação ao Oscar, a cantora de Nasce uma Estrela. Ela constrói uma Patrizia tão enigmática a ponto de se acreditar que ela casou exclusivamente por amor – embora claramente não seja o caso. A não ser Pacino, ninguém é páreo para ela aqui – mais por culpa dos personagens do que pelas atuações.
 
Antes (e depois) disso, porém, Casa Gucci é true crime emoldurado por moda e desfiles. A direção clássica conduz a narrativa sem nunca perder o interesse mas, quando acaba e se começa e pensar nela, alguns elementos não fazem sentido – especialmente com os letreiros finais (aquele tipo de coisa que parece obrigatória, contando o destino dos personagens). Fazendo-se a conta com os anos de morte de alguns personagens, certos fatos não batem. Mas nada supera o inglês com sotaque macarronicamente italiano adotado pelos atores e atrizes. Se não for exclusivamente para efeito cômico, então não faz o menor sentido.
 
Mas Scott não está aqui para fazer rir – ao menos, não exclusivamente, e esse é um dos problemas aqui. O diretor parece levar o mundinho da moda e das disputas familiares a sério demais. É como um novo rico que entra numa loja da Gucci e se deslumbra. Um cineasta que sabe pender para a sátira – um Paolo Sorrentino, para ficarmos na Itália, por exemplo – faria horrores com esse material. O tom aqui é totalmente reverente. O que não quer dizer não haver momentos de puro entretenimento. Casa Gucci é um tabloide, feito com qualidade, mas tabloide ainda. E, curiosamente, para um filme sobre o mundo da moda, o que mais falta aqui é um estilo próprio, algo que o faça se sobressair da produção em massa e justifique seu nome de grife.
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