05/07/2026
Drama

O direito de viver

Baseado num caso real, este drama produzido e dirigido pela extrema-direita dos EUA conta a história de um dos processos judiciais mais famosos daquele país, envolvendo uma jovem grávida e um promotor texano.

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Em produção há 3 anos, no auge do governo Trump, O Direito de Viver é mais um sintoma do seu momento do que cinema. Sintetiza na forma, muito bem, o zeitgeist de seu período, marcado por fake news – ou, como disse Kellyanne Conway, conselheira do ex-presidente dos EUA, “fatos alternativos”, um eufemismo para “manipulação e modificação de fatos históricos”.
 
É curioso como a esquerda é sempre acusada de doutrinação, mas este filme da extrema-direita – com participação de militantes como Jon Voight, Steve Guttenberg e Milo Yiannopoulos – chega pegando pesado em sua agenda anti-aborto, sem o menor pudor. Não seria a priori esse o maior problema – embora, em alguma instância, o seja – mas, como cinema, o longa é ruim, mal-escrito, pessimamente atuado e, com um elenco pedestre, o sensacionalismo impera.
 
O longa é dirigido pela dupla Cathy Allyn e Nick Loeb, ele também no papel de protagonista, o médico Dr. Bernard Nathanson, um ativista anti-aborto e fundador da NARAL, uma associação que faz de tudo para evitar abortos – desde protestos em portas de clínicas até lobbies políticos. Ele é um santo e herói dentro do filme, enquanto se satanizam figuras como a feminista Betty Friedan (Lucy Davenport) e a ativista Margaret Sanger (Wanda Leigh) – esta é vista, nas primeiras cenas, fazendo um discurso eugenista pró Ku Klux Klan. É esse o nível do filme.
 
A trama é baseada num famoso caso da Suprema Corte americana, de 1973, Roe contra Wade, em que foi reconhecido o direito ao aborto. Mas é através da voz sorumbática de Loeb, como o médico, que se narra sua trajetória e o caso. Ele começa como um abortista sem escrúpulos e apresenta as promotoras Sarah Weddington (Greer Grammer) e Linda Coffee (Justine Wachsberger), como duas predadoras que usaram uma jovem grávida e ingênua, Norma “Jane Roe” McCorvey (Summer Joy Campbell), para seus propósitos.
 
Aborto, no filme, é uma prática corriqueira, e também um golpe, com números manipulados e imagens gráficas de fetos desmembrados. Numa das cenas, a polícia de Chicago invade um hotel onde uma clínica ilegal está sediada, e sai de lá com baldes cheios de fetos. Sim, esse é o nível aqui. Aparentemente, seria demais pedir uma discussão com argumentos e fatos reais (dadas as condições aqui, o eufemismo parece necessário) contra o aborto. O Direito de Viver está pouco interessado nesse tipo de coisa. Por outro lado, quem tiver paciência e estômago para o assistir inteiro, encontrará alguns momentos de humor involuntários, dignos de Borat.
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