O primeiro trabalho no cinema do mexicano Joshua Gil foi com a equipe de fotografia de Japón, de seu conterrâneo Carlos Reygadas. Embora isso possa ter exercido uma influência nele, o que importa é que seu Sanctorum tem muito a dialogar com o outro cineasta. Um filme etéreo, repleto de belas imagens, que criam uma dissonância proposital entre forma e conteúdo – enquanto uma seduz, o outro repudia.
Na Sierra Mixteca, no sudeste do México, vê-se todo um povoado empobrecido e dominado pela máfia, que se torna a principal empregadora com a produção de maconha. A violência do tráfico é outra constante, causando, além de tudo, constantes chacinas. Com a passividade e incompetência do Estado, as comunidades acabam obrigadas a criar suas próprias milícias, o que gera um novo problema: acabam acusadas como culpadas por crimes cometidos por seus inimigos.
É nesse emaranhado político, social e econômico que se dá a narrativa, também roteirizada por Gil. Uma comunidade no meio da guerra entre duas facções rivais, num vilarejo em Oaxaca, é o cenário do filme, que começa com um professor falando sobre a Revolução Mexicana. É um lugar esquecido, onde as leis parecem não existir mais.
Premiado no Festival Indie 2020, Sanctorum narra também o apocalipse de um povo, cujos direitos e proteção são inexistentes. Nesse sentido, o diretor povoa seu filme de criaturas místicas e fantasmagorias, que reverberam o drama existencial de suas personagens, que parecem perdidas no tempo e no espaço. Mas o drama social relembra muito bem onde e em que momento histórico estão.
É nesse embate entre o material e o onírico que se conduz a narrativa. Em termos de gênero, está bem mais próximo do horror do que do drama – um horror do tipo social. Uma mulher desaparece, e seu filho pequeno pede ajuda aos deuses da florestas. Como eles poderão ajudar? A natureza é uma força, um elemento formal e mítico dentro do longa, embora o destino dos homens e mulheres pertençam a eles e elas mesmas.
Gil assina também a fotografia e concebe imagens belas e poderosas, especialmente da natureza, vista como grandiosa e independente da ação humana. Os sons do filme também entram na dicotomia entre os naturais e aqueles criados por homens (esses, em especial, são tiros que rompem com a harmonia). É a natureza, aliás, que protegerá a si mesma, parece dizer o filme, quando o fim chegar e ela reencontrar seu estado mais puro, quando a humanidade não existir mais.
