Premiada documentarista, a mexicana Tatiana Huezo estreia na ficção com A Noite do fogo, um filme dramático cuja narrativa é tão despojada que se aproxima do documental. O roteiro, também assinado pela diretora, parte do romance da norte-americana Jennifer Clement, mas certamente foi agregado ao original um olhar e uma sensibilidade mexicana, de quem está mais próxima da questão. Esta, por sua vez, é bastante próxima de seu conterrâneo Sanctorum, mas, ao contrário dele, não há exclusivamente um olhar poético e fantástico como resolução para os conflitos.
O filme começa com um prólogo, no qual um trio de crianças observa insetos numa floresta até que se deparam com uma cobra venenosa. É um fim abrupto para um momento idílico num filme embrenhado na crua realidade de uma região dominada pela disputa entre carteis de drogas. Ana (Ana Cristina Ordóñez González), uma das meninas, é instruída pela mãe para abrir um buraco na terra, ao lado de sua casa, caso seja necessário se esconder – ao mesmo tempo, uma cova e um útero para protegê-la.
As pessoas do vilarejo trabalham na extração de sementes de papoula, que servirão de base para drogas, o comércio que movimenta a região. Há um sentido de retrato coletivo aqui, de um grupo de pessoas vivendo com a mesma espada sobre suas cabeças e da qual jamais conseguem escapar. Em seus documentários, Huezo lida com temas como esse, indo desde a El Salvador do pós-guerra, em El lugar más pequeño, ao tráfico humano no México, Tempestad.
A Noite do Fogo não deixa de ser também um filme sobre uma garota de 8 anos descobrindo o mundo e como viver nele. Ao seu redor, crianças desaparecem para sempre ou reaparecem mortas. Parece não haver espaço ou possibilidade para o sonho e a ternura. Forçadas a cortar o cabelo – também para evitar piolhos –, elas parecem meninos e tentam proteger suas vidas, sufocando qualquer traço de feminilidade, o que chamaria a atenção e as transformaria em vítimas em potencial para o tráfico de mulheres.
Ao mesmo tempo, em meio a tudo isso, Ana tenta levar uma infância, até onde pode se chamar de, normal. Sem entender direito o que acontece, ela tem duas melhores amigas, Paula (Camila Gaal) e Maria (Blanca Itzel Pérez), e eventualmente flerta com o irmão de uma delas. E, assim, amadurecem – na adolescência, a protagonista é interpretada por Marya Membreño.
A Noite do Fogo, filme escolhido pelo México para representar o país no Oscar, é sobre esse processo de amadurecimento doloroso e complicado, num lugar hostil, que ameaça todas as mulheres. Ao mesmo tempo, é também sobre os laços de sororidade (embora as personagens nem conheçam essa palavra) e proteção que se formam entre elas. Huezo, conhecendo bem como documentar a realidade, transfere essas tintas para sua ficção e joga uma luz na infinita guerra dos carteis de drogas no seu país.
