O filme acompanha uma semana de crise na vida profissional e pessoal da comediante e atriz Lucille Ball, enquanto filma a segunda temporada de "I Love Lucy". Ela acaba de ser acusada de ser comunista, colocando sua carreira em risco. Seu marido, Desi Arnaz, parece ter sido flagrado com outra mulher, o que pode terminar com seu casamento.
- Por Alysson Oliveira
- 08/12/2021
- Tempo de leitura 3 minutos
A grande Lucille Ball é conhecida, obviamente, por seus talentos cômicos, especialmente, atuando ao lado de seu primeiro marido, o cubano Desi Arnaz, no televisivo I Love Lucy. Being the Ricardos, filme escrito e dirigido por Aaron Sorkin, está interessado, no entanto, em outra face do casal: o lado político e a dinâmica de um casamento em crise de dois gênios da comédia. E, apesar de ser um filme sobre o passado, o diretor injeta aqui uma vivacidade e energia que nem sempre materializaram em suas outras obras.
Nicole Kidman e Javier Bardem, mais do que fisicamente parecidos com Lucille e Desi, encontram a alma para transformar ídolos em seres humanos de verdade, e não celebridades, figuras conhecidas, e, no caso, amadas. É uma armadilha em que o filme poderia cair facilmente, mas a dupla consegue se esquivar do verniz de fama e admiração que cobria os personagens.
Being the Ricardos acompanha uma semana, em 1952, de muitas crises na vida do casal, tanto na frente das câmeras quanto fora dos holofotes. Tudo começa quando Lucille é acusada de ser comunista, algo que é seguido de fotos num tabloide de Desi ao lado de outra mulher. Lucille já desconfiava de infidelidades dele e, por mais que ele negasse, nada a convence de que tudo é apenas um mal-entendido.
I Love Lucy está em sua segunda temporada, e é um dos programas de maior audiência nos EUA. As divertidas façanhas de Lucy e Ricky Ricardo têm uma audiência de mais de 50 milhões de aparelhos ligados no programa, que é diferente de tudo o que a televisão do país já tinha feito. O casal protagonista, desconfia-se, interpreta na frente das câmeras – e do público, pois era gravado ao vivo – versões exageradas de si mesmo. Qualquer pessoa que tenha visto episódios do programa sabe do nível do humor, aparentemente simples, mas sofisticado por isso mesmo, capaz de fazer rir de episódios domésticos que beiram a banalidade, graças à genialidade de Lucille Ball.
Nessa mesma semana, em meio à crise, Lucille irá anunciar que está grávida. O canal de televisão que produzia e exibia o programa queria “esconder” a gravidez, usando elementos de cena que ocultassem a barriga da atriz, mas ela e o marido querem incorporar a gravidez às personagens, à trama da sitcom. Ou seja, muita coisa está acontecendo ao mesmo tempo na vida do casal. Tudo o que é mostrado no filme realmente aconteceu, mas não no mesmo momento. Sorkin conjuga tudo ao mesmo tempo e usa seu ritmo costumeiramente alucinado em seu favor aqui. A narrativa tem como moldura entrevistas (falsas) com roteiristas de I Love Lucy, interpretados por John Rubinstein, Ronny Cox e Linda Lavin. Mas, mais do que discutir essa tal semana, elaboram e comentam sobre a história de Lucille e Desi, resgatando a trajetória do casal que culminaria no televisivo.
Da fotografia, assinada por Jeff Cronenweth (Garota Exemplar), aos valores de produção, tudo em Being the Ricardos é evocativo de um período mas sem deixar ser tomado pela poeira do tempo ou a vantagem histórica de quem olha para o passado. É isso que traz frescor e vigor ao filme, sua curiosidade pelo presente de seus personagens, seu senso de historicidade sem ser nostálgico. Lucille é uma força da natureza com sua língua ferina e criatividade. Ela era uma visionária que tentava levar o programa cada vez mais longe. A cada novo episódio, se aproximava ainda mais da realidade e de seu público. Depois dela, a televisão e o humor nunca mais foram os mesmos.
