Ganhador do Teddy Award no Festival de Berlim de 2020 – prêmio conferido ao melhor filme de temática lgbtqia+ do evento –, Sem Ressentimentos é um achado. Um filme, ao mesmo tempo, terno e profundo, de uma temática pessoal e social/histórica. Dirigido com leveza e energia por Faraz Shariat, anuncia uma nova voz no cinema contemporâneo, cheia de vigor e frescor.
Seus protagonistas são um trio de jovens em busca de suas identidades – étnicas, sexuais – mas esse é um filme, por assim dizer, sem nenhuma dúvida. Shariat é um jovem cineasta seguro de suas escolhas temáticas e estéticas. O longa começa com Parvis (Benny Radjaipour), de 20 e poucos anos, em busca de sexo e que vai ao encontro de um homem no apartamento dele. O sujeito, depois da transa, se revela xenofóbico e racista – embora discretamente, mas ainda assim é.
Parvis, alemão de ascendência iraniana, é seguro de suas escolhas, de sua sexualidade. Seus pais, imigrantes, desafiam o clichê e apoiam o filho em todas suas escolhas – às vezes, até demais, a ponto de ele se tornar um tanto folgado e espaçoso, mas não é má pessoa, apenas está se descobrindo no mundo. Depois de uma pequena infração, é condenado a 120 horas de serviço comunitário num centro de refugiados, onde seu domínio do farsi pode ser útil (mas nem tanto, como revela uma cena hilária, quando se trata de dialetos).
É lá que conhece Amon (Eidin Jalali), que acabou de chegar do Irã com sua irmã, Banafshe (Banafshe Hourmazdi). O rapaz precisa fingir ser homofóbico, como seus amigos, para não ter problemas. Mas, no fundo, sabe que algo entre ele e Parvis aconteceu no momento em que trocaram o primeiro olhar.
O relacionamento que surge entre os dois também incluirá, como amiga, Banafshe. Com uma espécie de Jules e Jim, Sem Ressentimentos fala sobre e para a juventude contemporânea, com suas buscas por identidades num mundo globalizado, mas, nem por isso, menos preconceituoso. Shariat, que assina o roteiro com Paulina Lorenz, parte de uma história de amor para retratar a Europa contemporânea e suas questões políticas e sociais. Não é preciso fazer um tratado ou um filme sisudo para lidar com um assunto sério como a crise dos refugiados - esse filme é prova disso. Lidar com leveza não quer dizer superficialidade ou leviandade – pelo contrário, conforme se mostra aqui.
