18/07/2026

Cora é uma mulher dinamarquesa que descobre um material deixado por seu pai brasileiro. Trata-se de filmagens, fotos e gravações de sua família brasileira, que ela nunca conheceu. Enquanto tenta dar forma a isso tudo, ela faz descobertas sobre um país de grandes contradições.

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Publicado em 2007, Antonio, de Beatriz Bracher, não é um livro fácil. Pelo contrário, com múltiplos narradores, uma história envolvendo morte prematura, loucura e uma família de elite paulistana, o romance é aquilo que costuma se chamar de praticamente inadaptável para o cinema – ao menos se quiser se fazer justiça a esse material. Mas em Cora, os diretores Gustavo Rosa de Moura e Matias Mariani (filho da autora, aliás, mas isso é um detalhe) radicalizam em sua adaptação, num filme que é creditado como “uma resposta a Antonio”. E só assim, desrespeitando o original, é possível fazer um filme à altura do livro.
 
Se na literatura a ferramenta principal é a palavra, no cinema é a imagem. Por isso, os diretores se valem de recursos visuais que causam um distanciamento proposital numa história observada do ponto de vista de uma dinamarquesa (fazendo as vezes de Antonio no romance). É por esse olhar estrangeiro que uma classe social e um pais são colocados sob uma lente de aumento.
 
O ano em que o filme se passa é 2064 – não por acaso um século exato depois do golpe militar – e o Brasil está mais afundado do que nunca, num cenário de destruição apocalíptica material e social. Cora (Charlote Munk) encontra um material deixado por seu pai, Benjamin, que fazia um filme sobre sua família.
 
Construído como um documentário, Cora é um longa de estranhamentos. Propositadamente desconfortável na forma, esse é um diagnóstico sobre um país à beira do abismo e sua herança colonial perpetuada pelas e para as elites. Mantendo o espírito transgressor do livro de Bracher, o filme é composto de imagens em diversos formatos e interferências visuais que parecem defeitos, mas não o são – um letreiro no começo já avisa isso.
 
É também, intencionalmente, um filme de desconfortos com seu personagens – a maioria pouco agradável – e o retrato de um país em franca decadência até chegar no futuro distópico em que vive Cora. Essa figura, aliás, por ser estrangeira, tem um olhar bastante particular, com um distanciamento que até nos permite enxergar melhor nossa própria realidade. Brincando com o jogo do real, o longa faz um comentário pertinente e ácido sobre o estado das coisas num presente (nosso) que clama por mudanças urgentes.
 
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