14/06/2026

Alma é uma arqueóloga que há pouco se separou do homem que amava. Ela aceita participar de um experimento: conviver com um robô planejado sob medida para ser o grande amor de sua vida.

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Em 2021, o Festival de Berlim inovou e, ao invés de premiar um ator e uma atriz, concedeu um prêmio único de atuação, ao qual concorriam todos e todas intérpretes em longa da competição. Agrande vencedora foi a alemã Maren Eggert, de O Homem Ideal. Foi uma escolha bastante acertada e merecida, além de ser um feito raro, valorizar uma atriz de comédia com um troféu em um grande festival. Escolhido pela Alemanha para a representar no Oscar, o filme está na pré-lista dos longas que concorrem na categoria filme estrangeiro.
 
Eggert aqui é Alma, uma arqueóloga independente mas solitária. Ela se esforça para que isso não pareça ser um problema, mas, no fundo, é. Ela ainda pensa do antigo namorado, de quem se separou há pouco, mas quer acreditar que isso é assunto do passado. Quando aceita participar de um experimento, suas aflições românticas tomam outro caminho. Ela irá conviver com um robô de aparência bastante humana, feito sob medida para as aspirações românticas e sexuais dela.
 
Tom, interpretado pelo inglês Dan Stevens (Downtown Abbey), seria, ao menos a priori, o amante perfeito para Alma, pois foi feito sob medida para ela. Os dois passarão uns dias juntos no apartamento da moça, que deverá avaliar como o robô funciona – mas ela deixa claro: não haverá nenhum tipo de envolvimento, seja emocional ou físico. A experiência de Alma com Tom é monitorada por uma funcionária da empresa que construiu o robô, interpretada por Sandra Hüller, com uma personagem metódica – bem ao contrário daquela que fez em Toni Erdmann.
 
Desde a primeira cena, a diretora Maria Schrader (da série Nada Ortodoxa) deixa claro o tom do filme como uma comédia adulta e sofisticada, que brinca com os clichês da comédia romântica e das screwballs, em que o casal protagonista vive se estranhando até perceber que não consegue viver um sem o outro. Tom é planejado para seduzir, mas o faz sem sentimentos reais, tudo a partir de algoritmos milimetricamente desenhados que, no mundo real, nem sempre (ou raramente) funcionam. Suas cantadas, supostamente poéticas, são cafonas, e sua constante vontade de agradar, irritante.
 
Schrader, que assina o roteiro com Jan Schomburg, cria situações que testam o limite entre o natural e o artificial dos personagens. Por mais paradoxal que seja, é a partir do relacionamento com um robô que Alma reencontrará sua própria humanidade e se reconectará com sua família, de quem se tornou distante, num relacionamento quase mecânico que apenas cumpre obrigações. Ao mesmo tempo, há uma meditação implícita sobre a vida e a morte – o que faz de nós humanos – na figura do pai da protagonista (Wolfgang Hübsch), cuja mente está cada vez mais fragilizada e consumido pela demência.
 
Em seu trabalho no museu, Alma investiga um tipo de escrita antiga, remetendo à questão da memória, num filme que questiona o que é ser humano. É o acúmulo de experiências próprias que faz de nós o que somos? Ou como lidamos quando nosso desejo se materializa tal qual esperamos? Schrader pergunta grandes questões, mas sabendo que responder é impossível (e desnecessário). Assim, faz um filme que instiga e, ao mesmo tempo,  ilumina.
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