02/07/2026
Comédia dramática

Ovos de Ouro

Benito Gonzáles é um jovem pobre, apaixonado e ambicioso. Seu sonho é tornar-se empreendedor imobiliário. Para conseguir seus objetivos, ele se aproxima da filha de um banqueiro, Marta, ao mesmo tempo que usa sua amante, Claudia, para seduzir o pai dela.

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O irreverente diretor catalão Bigas Luna (1946-2013) nunca foi nem tentou ser politicamente correto, injetando seu humor ácido e carregado de erotismo na maioria de suas histórias - como este famoso Ovos de Ouro, que traz um Javier Bardem em começo de carreira mas que já havia trabalhado com Luna em Jamón, Jamón (1992). Se havia um talento inegável em Luna, aliás, era no faro para descobrir talentos, como fez com o próprio Bardem, Penélope Cruz, Ariadna Gil, Jordi Mollá e outros - como Benicio del Toro, que faz um pequeno papel no final deste filme (ainda tendo seu primeiro nome grafado com “s”). 
 
Este Javier muito jovem e enérgico interpreta o protagonista, Benito Gonzáles, rapaz pobre que sonha tornar-se empreendedor imobiliário. Impulsivo e intenso, ela namora Rita (Elisa Touati), irmã de seu melhor amigo, Mosca (Francesco M. Dominedò). Benito julga ter o mundo nas mãos, mas a realidade não obedece à sua vontade. Além disso, ele sofre traições. 
 
Bardem compõe um personagem que, de várias maneiras, encarna a masculinidade agressiva, que julga que o mundo, mulheres incluídas, se curvarão à sua vontade, custe o que custar, nem que todas as regras tenham que ser quebradas. Bigas Luna cria metáforas visuais perfeitas nas inúmeras referências falocêntricas, tanto na decoração dos ambientes quanto no próprio projeto de um arranha-céus de 50 andares que Benito sonha construir.
 
Sem dinheiro, nem parentes importantes, Benito conta apenas com essa vontade aguerrida que, em vários momentos, atropela sensibilidades e desejos diferentes dos seus. Como os de suas mulheres, caso de Claudia (Maribel Verdú), que ele sacrifica para casar-se com Marta (Maria de Medeiros), filha do banqueiro Folch (Albert Vidal), de cujo dinheiro ele necessita para transformar-se em construtor. 
 
Como sempre, Bigas Luna demonstra seu destemor diante de cenas de sexo ousadas, desnudando seus atores de forma bastante franca. Além disso, não teme expor o mau gosto, delineando a cafonice de Benito, que cresce de maneira exponencial no vestuário e na decoração de sua ostensiva mansão à medida que seu saldo bancário aumenta. Também não muda o gosto musical do protagonista, que se fixa em Julio Iglesias, particularmente na pegajosa Por amor de una mujer, que se repete em vários momentos da trama - que se vale também, felizmente, da trilha sonora assinada pelo italiano Nicola Piovani.
 
A natureza de Benito, que se gaba de ter dois/duas de tudo - assim como seus testículos -, funciona a serviço de uma cáustica sátira do machista e cafajeste amante latino e também do empreendedor capitalista padrão, cuja trajetória mostra-se inseparável da vulgaridade e incapaz de evolução espiritual ou cultural. Pode-se ler Ovos de Ouro como um réquiem irônico do crepúsculo do macho, que uma sequência onírica na parte final ilustra à perfeição. O melhor é que Bigas Luna compõe este seu relato de maneira a não desumanizar Benito, nem evocar nenhuma espécie de redenção mágica, dando uma grande oportunidade a Javier Bardem de empreender esta jornada com uma complexidade memorável.
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