Apesar do título ser um possível gatilho, dada a situação pandêmica presente, para algumas pessoas, o alívio, ao menos, vem do fato de que Omicron, O agente do espaço, não é um filme sobre o coronavírus. Escrito e dirigido pelo italiano Ugo Gregoretti (não confundir com o brasileiro Ugo Giorgetti), o filme fez sua estreia mundial no Festival de Veneza de 1963 e traz como protagonista o ator Renato Salvatori, mais conhecido pelo papel do irmão boxeador de Rocco, no filme de Luchino Visconti. Já a fotografia é assinada pelo mestre Carlo di Palma, que tem no currículo títulos como Blow-Up – Depois daquele Beijo, o brasileiro Gabriela, e diversas parcerias com Woody Allen, como Setembro, Hannah e suas irmãs e Tiros na Broadway.
O filme começa com um corpo descoberto num parquinho por uma mulher que brinca com seus filhos. Trata-se de um operário, Angelo Trabucco, que acaba levado para o necrotério, onde passará por uma necropsia e espera a chegada de algum parente para fazer o reconhecimento. Inesperadamente, o corpo volta à vida antes do procedimento começar, causando espanto e temor nas pessoas ao seu redor. Começa aí a saga de Omicron, um ser alienígena sem forma que foi enviado para a Terra para estudar o comportamento dos terráqueos para uma futura possível invasão.
Omicron conversa, dentro da cabeça de seu hospedeiro, com seu superior, no outro planeta, e descreve, a princípio sem compreender bem, as sociedades humanas. Não são poucas as vezes em que o alienígena leva bronca por não estar se empenhando em sua pesquisa. Por mais que seja uma inteligência avançada, tudo é novidade para ele.. Isso gera um dos momentos de maior humor do filme, com Trabucco “possuído”, agindo de maneira estranha, ou fazendo caras e bocas. Salvatori revela-se aqui um grande ator cômico – especialmente num humor físico – nas trapalhadas do alien em forma humana.
Obviamente, as descobertas do ser Omicron são grandes revelações sobre a humanidade. Uma delas, a mais engraçada, é sobre as relações sexuais. O ser fica espantado – para não dizer enojado – que os seres humanos ainda dependam de contato físico para se reproduzir, e que só as fêmeas possam gestar. Mas a mais reveladora delas é sobre o capitalismo, não apenas o modo de produção, como a sociedade de classe, os ricos e os pobres (os donos dos meios de produção e os trabalhadores). Surgem daí diálogos um tanto didático sobre o tema, mas, ainda assim, não desinteressantes.
Quando Trabucco volta, finalmente, ao trabalho, ele se torna o operário mais eficiente da fábrica, causando um grande problema para seus colegas. Se ele consegue trabalhar tão rápido (graças à descomunal força alien que domina seu corpo, mas ninguém sabe, obviamente), como os outros não conseguem produzir tanto em tão pouco tempo como ele? Isso gera momentos cômicos – inclusive algo que remete a Chaplin em Tempos Modernos – mas que ainda assim criticam o mundo como era (e ainda é) dado.
