Vencedor de dois prêmios na mostra Horizontes do Festival de Veneza 2019 - melhor direção e prêmio Fipresci (associação internacional de críticos) -, o drama Branco no Branco, de Théo Court, tematiza questões candentes e polêmicas: violência de gênero, genocídio indígena, exploração e ocupação predatória. Coprodução entre Espanha, Chile, França e Alemanha, o filme representou o Chile nas indicações ao Oscar de filme estrangeiro 2022.
Ambientado no início do século XX, no ambiente isolado e inóspito da Terra do Fogo chilena, o enredo parte da chegada de um fotógrafo, Pedro (Alfredo Castro), a uma fazenda, para registrar um casamento. Recebe instruções, no entanto, de fotografar apenas a noiva, Sara (Esther Vega Pérez Torres), enquanto o noivo, o misterioso sr. Porter, se encontra ocupado e longe.
A própria produção das fotos da noiva, que não passa de uma criança - fato comum na época - já sugere esta espécie de pedofilia oficializada por casamentos tão precoces para as meninas. A violência de gênero também atinge a única mulher branca e adulta, a governanta Aurora (Lola Rubio), que, contraditoriamente, mantém os rituais da erotização precoce de Sara.
Pior sorte aguarda as garotas indígenas Selknam da região, com seus corpos dispostos como mercadorias, tanto quanto a menina Sara, mas num contexto ainda mais cruel, mais violento. E, o que é pior, com a cumplicidade de um chefe indígena.
Este aliciamento, sem dúvida forçado, dos oprimidos, levado adiante a poder de ferro e fogo pelos brutais habitantes da fazenda, cujo proprietário, poder invisível, nunca aparece, é um dos muitos aspectos inquietantes deste filme singular e aberto a muitas leituras. Em debate, o brutal processo de ocupação das Américas, dando continuidade àquilo que a colonização europeia começou.
O próprio fotógrafo Pedro, que chega como um visitante mais ou menos privilegiado, paulatinamente fica enredado em todo o processo. Ele não pode partir e é tornado cúmplice deste afrontamento violento, tornando-se o agente da História oficial - já que suas fotografias, maquiando o massacre indígena como se se tratasse de uma guerra entre dois lados com as mesmas forças, é que sobreviverão como a versão dos acontecimentos.
Nenhum personagem indígena tem diálogos - sua presença física ocupa os espaços e as expressões faciais substituem as palavras. A explicação do diretor Théo Court, quando esteve no Cine Ceará em 2020 exibindo o filme, foi que não pretendia fazê-lo de outra forma, temendo incorrer em algum tipo de exotismo - até por não dominar um conhecimento mais etnocêntrico - e também por entender que isto simbolizava o próprio silenciamento dos Selknam, povo retratado no filme. Barbaramente dizimados, estes indígenas foram extintos e até sua língua desapareceu, sobrevivendo apenas em registros pontuais, como antigos documentários. Os indígenas vistos no filme, aliás, são bolivianos Aymara e foram selecionados num casting em Tenerife.
A filmagem com a garota Esther Vega Pérez Torres, a estreante de 11 anos que interpreta a noiva Sara, por sua vez, requereu grandes cuidados, até pela sugestão erótica de suas cenas. O diretor contou que ela foi devidamente informada sobre o roteiro, estando sua mãe presente no set. Além disso, o ator Alfredo Castro foi “extremamente delicado e protetor” em todo o processo, garantiu.
Filmando em locações inóspitas, como a Terra do Fogo chilena, sempre assolada por ventos e neve, e as ilhas Canárias (cenas desérticas), o diretor comentou que as filmagens ofereceram certos desafios logísticos. Na fotografia (assinada por José Ángel Alayón), também pelo fato de o diretor fazer questão de manter-se fiel a uma luminosidade natural, recorrendo apenas a tochas e velas para manter um certo ambiente de bruma que é típico da Terra do Fogo.
No caso do som, assinado por Carlos García - responsável pelo mesmo setor em filmes como O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra, e Ninfomaníaca, de Lars von Trier -, o conceito foi criar atmosferas sonoras bem específicas a partir de ruídos, como do vento reverberando em paredes de chapa metálica - nas casas típicas do local -, de passos em chão de madeira e também de tiros.
Por realistas que sejam muitas sequências, as referências iniciais de Court para escrever o roteiro não foram de relatos e sim de fotos da época da história. Nascido em Ibiza, Espanha, em 1980, Court formou-se em Fotografia em Madri, estudando Cinema depois, no Chile e na Escola de San Antonio de los Baños, em Cuba.
