É um grande feito para A felicidade das pequenas coisas estar entre os 15 pré-finalistas na categoria melhor filme em língua estrangeira, no Oscar 2022. O longa representa o Butão, um pequeno país na Ásia Meridional, que pela segunda vez na história consegue enviar um filme para a premiação – o outro havia sido A Copa, de Khyentse Norbu, em 1999. Não é difícil entender o porquê da escolha deste filme e também como seduziu os votantes.
Escrito e dirigido por Pawo Choyning Dorji, um fotógrafo e artista plástico estreante em longas, o filme tem como seu grande trunfo a simplicidade, o que está em perfeita sintonia com a história que conta e o local onde se passa. O cenário é o pequeno vilarejo de Lunana, no norte do Butão, na região do Himalaia, também conhecido como o lugar mais distante de tudo no país. É para lá que o jovem professor Ugyen (Sherab Dorji), a contragosto, é transferido para uma escola pública. Seus planos são bem diferentes: emigrar para a Austrália e tornar-se um cantor de sucesso.
Chegando na pequena Lunana, uma viagem que demanda esforço físico e psicológico, ele se depara com um mundo completamente diferente daquele que conhece. A eletricidade vem de baterias solares, o que a torna intermitente, o celular não tem sinal, a escola não passa de uma pequena construção e o número de habitantes locais é pouco mais de 50 pessoas. Ao chegar lá e conhecer a nova realidade, Ugyen decide que não está preparado para isso e pede para voltar para casa. A viagem, no entanto, só poderá acontecer dali a uma semana.
Não é surpresa que, nesse período, a vida do professor se transformará. Será o tempo necessário para ser conquistado pelos pequenos alunos e alunas, assim como descobrir a beleza que existe naquela vida simples. O que não quer dizer que Dorji faça desse um processo pouco plausível. A narrativa é construída de tal forma que, mesmo em seus momentos previsíveis, exista sinceridade nas ações e nos personagens.
Ugyen logo conhecerá Saldon (Kelden Lhamo Gurung), a jovem dona de uma bela voz que passa o tempo cantando. A paixão pela música acabará aproximando os dois e o professor logo começa a se acomodar em Lunana, encontrando inesperadas alegrias nessa nova vida. A fotografia, assinada por Jigme Tenzing, valoriza a beleza natural de Lunana, tornando bastante plausível a maneira como o protagonista se apaixona pelo lugar.
A narrativa equilibra momentos mais dramáticos com outros cômicos, partindo especialmente da ideia de Ugyen num ambiente que não é seu habitat natural e de seu estranhamento diante de um modo de vida mais voltado para a natureza. É desse contraste que Dorji tira a beleza de seu filme: mostrando que há coisas boas tanto na cidade quanto no campo e que, acima de tudo, o processo de aprendizagem é perene. O elenco – excetuando o protagonista – é composto de moradores e moradoras de Lunana, que não tinham experiência em atuar (muitos nunca saíram dali), o que traz ainda mais verdade e beleza ao filme.
