05/07/2026
Romance Drama Comédia

O Atalante

Jean e Juliette acabaram de se casar e irão viver no barco do qual ele é capitão: o Atalante. Como o amor resistirá ao cotidiano e à rotina ?

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Mal recebido em sua época, O Atalante, o único longa de Jean Vigo, que morreu antes de o ver nos cinemas Só ganhou status de grande com o tempo. Talvez não tenha sido compreendido por estar à frente de sua época. O modo de narrar, a combinação de gêneros, a maneira lúdica como transita entre o drama e a comédia quase escrachada não encontraram ressonância junto a uma crítica e uma plateia de 1934, quando o cinema ainda era uma arte relativamente jovem.
 
O que importa é que hoje o filme é amado e se tornou referência em sua história de amor simples, mas, por isso mesmo, sofisticada. O que talvez fosse incômodo – ainda que num nível talvez inconsciente – é a maneira livre e fluida como a sexualidade e o amor são tratados no filme. O crítico e pesquisador norte-americano Jonathan Rosenbaum uma vez o classificou como “um filme bissexual”. Não é de surpreender que a primeira cena mostre dois homens de mãos dadas. E, ao longo da narrativa, os amores e os laços de afeto transitam de maneiras mais variadas.
 
Os personagens centrais são Juliette (Dita Parlo) e Jean (Jean Dasté). Ela, uma jovem simples do interior, ele, o capitão da pequena embarcação que dá título ao filme – com a qual ela dividirá o coração do amado. O Atalante é a casa deles, o palco do amor e das diferenças que emergem com o tempo. Com gatos para todo lado, o casal vive seu amor, mas também os problemas do cotidiano a dois. A questão é: como a chama resiste diante dos problemas (pequenos e grandes) e da rotina? As coisas vão mudar aqui, diz Juliette, e Jean logo a está ajudando nos afazeres domésticos.
 
Ela sonha em conhecer Paris, Jean promete que irão até lá assim que voltarem da viagem de núpcias. Mas Juliette encontra Jules (Michel Simon), um homem de espírito livre que, entre outras coisas, não se importa de colocar o vestido que ela está costurando para que ela faça alguns ajustes.  No quarto dele, ela encontra a foto de um belo jovem sem camisa: “É um velho amigo”, ele explica. Seria mesmo? Importa? Sucede-se um leve jogo de sedução que fica mais intenso com a chegada de Jean.
 
Com uma bela fotografia de Boris Kaufman   (Sindicato de Ladrões, Longa jornada noite adentro), O Atalante é uma ode à liberdade, ao direito individual de ser quem ou o que se quiser, mesmo dentro de um casamento. A rotina, como diria Ozu, tem seu encanto, e é preciso, parece dizer Vigo, apaixonar-se e ser seduzido/a novamente todos os dias. Em seu primeiro e único longa, o cineasta se mostra um diretor sofisticado e maduro que, infelizmente, a tuberculose nos tomou muito cedo.
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