05/07/2026
Drama

Sempre em frente

Johnny é um produtor de rádio de um programa sobre a juventude contemporânea, abordando suas expectativas e sonhos. Quando sua irmã enfrenta problemas com o marido bipolar, ele aceita cuidar do sobrinho de 9 anos, o que transforma a vida de ambos.

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Numa cena documental de Sempre em Frente, um produtor de um programa de rádio pergunta a um garoto: “Você acha que adultos entendem o que as crianças estão passando?” A resposta, embora o entrevistado seja bastante direto e positivo, está toda espalhada ao longo desse belo filme, escrito e dirigido por Mike Mills (Mulheres do Século XX). Joaquin Phoenix interpreta o protagonista, Johnny, que está realizando uma série de programas de rádio sobre as crianças dos Estados Unidos, uma percepção que mudará não apenas com as conversas, mas também porque se tornará uma espécie de babá do sobrinho de 9 anos, enquanto a mãe do garoto, Viv (Gaby Hoffmann), cuida do marido (Scoot McNairy), que enfrenta uma crise e precisa ser hospitalizado.
 
O sobrinho em questão é Jesse, um menino adorável, inteligente e hiperativo, interpretado com sinceridade por Woody Norman. Ele não tem uma relação próxima com o tio, já faz um ano que não se veem e, na verdade, como alerta Viv, o garoto nem se lembra dele: “Um ano é muito tempo para uma criança de 9 anos”. A questão é que ela e o irmão também não estão nos melhores termos desde a morte da mãe. Mas, nesse momento de urgência, sem ter a quem recorrer, ela liga para Johnny, que mora em Nova York, mas larga tudo e viaja para Los Angeles para ficar com o sobrinho.
 
As coisas tomam caminhos inesperados e ele precisa voltar ao trabalho, assim, resolve levar Jesse com ele. O menino irá para Nova York pela primeira vez na vida, estará longe da crise que seus pais enfrentam e poderá estreitar os laços com o tio. Embora Gab se mostre um pouco desconfiada, no começo, acaba aceitando a viagem, pois será melhor para ela também, já que nesse momento precisa concentrar todas suas energias no marido que está sendo internado.
 
Mills é um diretor de sutilezas, de construção de personagens de maneira humana e plausível. Johnny e Jesse, obviamente, se tornarão grandes amigos e aprenderão muito um com o outro e é o caminho dessa amizade que está em Sempre Em Frente. É graças à convivência com o sobrinho que o produtor compreenderá melhor todos os meninos e as meninas que está entrevistando. E graças ao tio, o menino também entenderá melhor o que está acontecendo com seu pai e sua mãe naquele momento de dificuldade. O diretor também é capaz de driblar as armadilhas sentimentaloides nas quais tal história poderia cair.
 
Phoenix baixa a voltagem dos seus trabalhos mais recentes e marcantes – como Coringa e Você nunca esteve realmente aqui, que lhe renderam, respectivamente, um Oscar e um prêmio em Cannes. Aqui ele é um homem comum, com problemas de gente comum. Um tanto solitário – o sobrinho pergunta se não tem namorada, e ele desconversa – mas feliz ao seu modo. Porém, não há dúvidas: o filme é de Woody Norman, ator inglês de 11 anos, que esteve em filmes como A Batalha das Correntes e foi indicado ao BAFTA de coadjuvante por seu trabalho aqui.
 
Por meio das entrevistas reais, Sempre em frente evoca um mundo em transformação, uma juventude do século XXI, com aspirações e sonhos, mas também ciente do mundo em que vivem. Cidades como Detroit e Nova Orleans são cenários dessas conversas, lugares que pulsam com vida e energia juvenil de um mundo por conquistar. As falas dos meninos e meninas são reveladoras – em especial de filhos e filhas de imigrantes – e comoventes por sua sinceridade e honestidade.
 
Já a fotografia em preto e branco de Robbie Ryan (A Favorita, Você não estava aqui) não é mero preciosismo estético, é a potencialização do sentimento de atemporalidade do filme, além de um belo retrato das cidades onde o longa foi filmado. Há apenas um momento em cores, nos créditos finais, quando um letreiro dedica o filme a Devante Bryant, uma das crianças entrevistadas em Nova Orleans, que morreu num tiroteio em meados de 2020. Um momento de tamanha tristeza num filme que, em si, é uma celebração da vida.
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