Buddy tem 9 anos e vive uma infância tranquila, com o irmão mais velho, Will, os pais e os avós, no norte de Belfast. Quando sua vizinhança, predominantemente protestante, é abalada por uma tentativa violenta de expulsão dos moradores católicos de suas casas, ele vê sua vida transformar-se radicalmente. Na Amazon Prime (a partir de 6/2/2024).
- Por Neusa Barbosa
- 16/02/2022
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O ator e diretor irlandês Kenneth Branagh revisita suas memórias de infância para recontar, sob o ponto de vista de uma criança - Buddy (o estreante Jude Hill) - a vivência de um período turbulento na história de seu país, nos anos 1960, não por acaso conhecido como “The Troubles”.
A história decola em 15 de agosto de 1969, data em que moradores católicos do norte de Belfast foram atacados por seus vizinhos protestantes, desencadeando uma tensão entre as duas comunidades que se prolongaria por vários anos, alimentando a guerra civil local e a diáspora dos irlandeses por vários países do mundo.
Escrito também por Branagh, o roteiro não investe na riqueza de detalhes históricos ou muita contextualização. O que realmente lhe interessa é a vivência daqueles dias por pessoas bem comuns, trabalhadores, como a família de Buddy, levadas a decisões difíceis pela exacerbação dos ânimos políticos entre os unionistas protestantes e os republicanos católicos. Algo que hoje chamamos de “polarização”.
O ataque às casas dos católicos, violento, feroz, tensiona os habitantes do norte de Belfast - como os pais de Buddy (Caitriona Balfe e Jamie Dornan) e também os avós (Ciarán Hinds e Judi Dench). Protestantes, eles sempre conviveram em paz com seus vizinhos católicos. Não vêem sentido nestes conflitos, que levam à construção de barricadas, temendo um revide dos republicanos, e à ação de valentões, como Billy Clanton (Colin Morgan), que tenta extorquir os moradores em troca de oferecer “segurança”.
Ao assumir o ponto de vista de Buddy, de 9 anos, o filme procura claramente sintonizar com emoções e sentimentos, engajando emocionalmente o espectador com estas famílias. É evidente que Branagh procura aqui realizar o seu Roma, em que Alfonso Cuarón enfeixou suas memórias pessoais. Mas o diretor irlandês não o faz com tanto brilho, exagerando um pouquinho nas doses de açúcar que acrescenta à própria caracterização de Buddy e seus enfrentamentos com um ambiente crescentemente ameaçador. O refresco para a tensão, compreensivelmente, está no cinema, que Buddy, seu irmão maior, Will (Lewis McAskie), e o resto da família frequentam, para assistir Star Trek, Mil Séculos Antes de Cristo (apresentando Raquel Welch em um inesquecível biquíni de pele) e o musical O Calhambeque Mágico.
Da mesma forma, Branagh procura pôr em relevo a dramática saga dos irlandeses, como sua própria família, forçados a abandonar sua terra natal, suas referências e tudo o que conheciam em função desse esfacelamento do país que amam. Assim, emana uma justa e genuína emoção da frase final na tela: “Para os que ficaram, para os que partiram e para todos os que estavam perdidos”.
O filme concorreu em 7 categorias do Oscar 2022: filme, diretor, ator coadjuvante (Ciarán Hinds), atriz coadjuvante (Judi Dench), roteiro original, som e canção original (Down to Joy, de Van Morrison), vencendo apenas a de roteiro original.
