04/07/2026
Drama

Pequena mamãe

Nelly acaba de perder sua avó, e está ajudando os pais a arrumar a casa onde a mãe passou sua infância. Um dia, explorando o bosque ao redor, encontra uma menina de sua idade.

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É impressionante a versatilidade da cineasta francesa Céline Sciamma, que, apesar de fazer filmes desde 2007, ganhou mais visibilidade a partir de 2019 com seu arrebatador Retrato de uma jovem em chamas. Mas quem a conhece apenas deste irá se surpreender ainda mais com Pequena Mamãe, uma fábula melancólica e esperançosa numa chave completamente diferente. Se o outro era um drama de época com um toque grandioso, erótico, e de uma alta voltagem, aqui ela trabalha num tom menor e mais intimista, tendo como protagonista uma garotinha de 8 anos.
 
Dizer que este filme tem um tom menor, não quer dizer que seja menor – pelo contrário. Em sua simplicidade e sinceridade, é gigantesco. Nelly (Joséphine Sanz) é a protagonista, que nos é apresentada na casa de repouso, onde viveu sua avó, que morreu há pouco. A menina se despede dos outros moradores e moradoras – nunca mais voltará lá. Ela está com sua mãe (Nina Meurisse), que também está muito abalada, sentindo-se sozinha no mundo com a morte de sua mãe.
 
Esse é o ponto de partida desse filme curto mas, nem por isso, menos profundo. A Sciamma, especialmente como diretora, sempre interessou o retrato de jovens mulheres, nem sempre em chamas, mas dotadas de um senso de urgência em um mundo ou momento de transformação. O terreno da infância também não é novidade na obra da cineasta – haja vista seu Tomboy – mas aqui é diferente de tudo o que ela fez – ao mesmo tempo, em plena sintonia com toda sua filmografia.
 
A "pequena mamãe" é a nova amiguinha que Nelly fará enquanto sua mãe e seu pai (Stéphane Varupenne) cuidam das coisas que a avó deixou em sua antiga casa, cercada por um bosque. É em meio às árvores, brincando solitária – o que não é um problema para ela – que a garota conhece Marion (interpretada pela irmã gêmea de Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz), uma menina de sua idade, que está construindo um pequeno forte.
 
É nesse encontro que Sciamma constroi a magia de Pequena Mamãe. Estranhamente, Marion assume um papel de cuidado com Nelly, como se fosse sua mãe. Há uma reviravolta aqui,mas revelá-la seria tirar o prazer da descoberta. Embora valha dizer que não seja difícil descobrir o que está acontecendo antes da revelação, quando esta vem à tona, Sciamma mostra como seu filme é bem construído e seu delicado suspense faz todo sentido dentro da narrativa. É tão simples, mas, ao mesmo tempo, tão complexo, trazendo em si um questionamento, ou uma curiosidade que seja, algo que praticamente todo mundo já se perguntou.
 
Sciamma, que também assina o roteiro, consegue um feito raro: contar uma narrativa pelos olhos de uma criança sem menosprezar sua sensibilidade e inteligência. Esse é um problema bastante comum em obras narradas pelo ponto de vista infantil, duvidar da capacidade dos pequenos e pequenas de compreender o mundo e seu redor. A diretora, como já mostrara antes, confia em suas personagens e na sagacidade delas – sem também correr o risco do oposto, torná-las adultas em miniaturas.
 
A amizade entre Nelly e Marion cada vez se estreita ainda mais, são como duas irmãs, mas os laços que as unem dependem de uma dose de fantasia. Sciamma foi uma das roteiristas da animação Minha Vida de Abobrinha, outro filme delicado e preciso sobre os ritos da infância, e como lá, mostra aqui um apreço pela descoberta do mundo, pelo amadurecimento gradual e a credulidade que só a infância pode proporcionar. Em Pequena Mamãe, a diretora assina uma pequena joia cinematográfica, um filme delicado sobre como somos o resultado daqueles e daquelas que vieram antes de nós.
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