02/07/2026

Maria e Ingvar são um casal um tanto calado e triste, vivendo numa fazenda isolada, na Islândia, onde criam animais. O nascimento de uma criatura particular chama a atenção deles, que decidem adotar o animal como uma filha.

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Aluno da escola de cinema, em Sarajevo, do húngaro Béla Tarr (creditado como produtor aqui), o estreante Valdimar Jóhannsson toma emprestados elementos do cinema do mestre em Lamb. Mas o estranhamento que cria é dele próprio, numa fábula sombria e bizarra sobre maternidade e natureza. O filme já começa estranho, num dia de Natal, quando acontece a concepção do cordeiro do título. O conto de horror que se abre a partir daí está na ponta oposta do espectro do gênero, sem aquelas imagens escuras, sustos baratos ou sangue recorrente.
 
Jóhannsson, que assina o roteiro com o escritor e poeta islandês Sjón, é um diretor meticuloso e sem pressa, o que causa ainda mais aflição ao longo dos pouco mais de seus 100 minutos. O que vai acontecer? Quem são essas pessoas? São perguntas respondidas com calma, quando o são. A protagonista é Maria (Noomi Rapace) que, com o marido, Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), é dona da fazenda onde cria animais e se dá a ação. Calados, eles trabalham muito, mas há um elefante na sala, algo sobre o qual não querem falar e, conforme transparece, envolve a perda de uma criança pequena.
 
Quando uma ovelha dá à luz a uma estranha criatura híbrida, meio humana, meio ovina, para Maria e Ingvar parece a natureza lhes sorrindo, dando-lhes uma segunda chance. O casal adota o animal e lhe dá o nome de Ada. Custa um tempo até a criatura aparecer no filme, mostrada, finalmente, em toda sua fofura e estranhamento – ao menos para o público, pois, para os personagens está tudo certo.
 
E fica tudo certo por algum tempo, com Ada sendo criada como uma criança qualquer, recebendo amor e carinho dos pais, usando suas roupinhas fofas e se desenvolvendo. Até a chegada de Pétur (Björn Hlynur Haraldsson), o irmão folgado de Ingvar, com quem Maria teve um caso no passado. Ele é a voz da razão que pergunta: "Que raios está acontecendo aqui?", “Bem, é complicado”, diriam os pais de Ada, se quisessem responder mesmo à pergunta, mas Lamb toma outros caminhos.
 
Pela abertura, no Natal, a sensação é a de que Jóhannsson abraçará com gosto a alegoria cristã do cordeiro que veio ao mundo para tirar os pecados, ou mesmo pelo nome da protagonista, Maria. Mas, na verdade, ele está interessado em alguma espécie de mitologia pré-cristã, possivelmente muito mais clara para os povos nórdicos do que para o restante do mundo. No sentido de um conto de terror, Lamb também pode servir como uma leitura da maternidade e sua relação com a natureza, ou ainda quando a Mãe (ou talvez, estranhamente aqui, o “Pai”) Natureza decide cobrar de volta o preço dos anos de abuso que sofreu.
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