Suze Trappet é uma cabeleireira bem-sucedida que, aos 43 anos, descobre sofrer de um mal incurável nos brônquios. Obcecada por descobrir o que foi feito do filho de que ela teve que abrir mão aos 15 anos, ela se junta ao técnico de TI Jean-Baptiste Cuchas, fugindo da polícia depois de um incidente com um fuzil, e Serge Blin, um arquivista cego de memória prodigiosa.
- Por Neusa Barbosa
- 21/02/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Vencedor de sete prêmios César - incluindo melhor filme, diretor e roteiro original -, Adeus, idiotas, do ator e diretor Albert Dupontel, é obra de difícil classificação, o que não impediu que fosse um grande sucesso na França em 2020. Há um pouco de tudo nesta história escrita pelo próprio Dupontel - com as colaborações de Marcia Romano e Xavier Nemo: drama, comédia, romance, aventura, policial, tudo isso temperado num ritmo frenético, embalado na trajetória de um trio de personagens inusitados.
Virginie Efira, uma atriz versátil e não raro ousada em suas escolhas de papeis, interpreta Suze Trappet, a cabeleireira bem-sucedida que descobre ter uma doença incurável nos brônquios, causada pela exposição aos sprays usados no salão. A notícia provoca a urgência de um acerto de contas com uma pendência do passado. Há anos, ela procura pelo filho que teve aos 15 anos e foi obrigada a dar em adoção pela pressão dos pais. Agora, sem tempo para esperar e nada mais a perder, ela decide arriscar tudo encontrá-lo.
Sua presença no ministério da Saúde em busca de informações a coloca no caminho de Jean-Baptiste Cuchas (Albert Dupontel), o coordenador de segurança dos sistemas de TI da repartição, bem no dia em que ele sofre um surto de consequências dramáticas. Solitário e humilhado ao ser passado para trás no trabalho, que é sua única razão de viver, ele arma um mecanismo para seu próprio e espetaculoso suicídio. Mas mesmo os melhores técnicos falham e um grande desastre se sucede.
Resgatando Cuchas do cenário de um crime, Suze pensa chantageá-lo para obter a informação que precisa sobre o filho, perdida nos imensos arquivos guardados por burocratas desatentos e insensíveis. Falta ainda um terceiro integrante nesta trupe improvável: um arquivista cego, Serge Blin (Nicolas Marié, premiado com o César), que ali foi parar depois de um encontro desastroso com a polícia.
Descrito como uma comédia pela distribuidora, o filme não é de modo algum uma comédia rasgada, longe disso. Incorpora, sim, diversos elementos cômicos, mais irônicos do que outra coisa, sobre as instituições sociais que cercam a vida das pessoas - as repartições públicas, os hospitais, a polícia. Pelas próprias características deste trio solto em aventura alucinada, ainda que o objetivo seja sentimental - encontrar o filho de Suze -, a narrativa caminha num ritmo imprevisível, no bom sentido. Ao contrário das produções hollywoodianas do mesmo naipe, é difícil prever o que vai acontecer na cena seguinte. Não há também nenhuma garantia de que tudo dará certo açucaradamente no final.
Dito isso, Adeus, Idiotas - um título que carrega um poderoso sentido existencial - é capaz de entregar momentos de genuína emoção, a partir de várias figuras secundárias que podem deter alguma informação sobre o filho perdido. O melhor é que estas emoções são distribuídas fora dos trilhos que o cinema convencional coloca para o público seguir. O espectador terá que contar com sua própria intuição e empatia por três seres fora do padrão para poder minimamente colocar-se no seu lugar e compartilhar sua jornada.
É uma história inteligente e sofisticada, em que o diretor assume homenagens ao Monthy Python - em primeiro lugar, dedicando o filme a Terry Jones, que morreu em janeiro de 2020, e também escalando Terry Gilliam para estrelar um alucinado comercial de rifles que é a cara do grupo de humoristas britânicos e aqui se encaixa como um comentário ácido contra o armamentismo.
