O motivo para ver No ritmo da vida é a presença da veterana Cloris Leachman em um de seus últimos filmes antes de morrer, aos 94 anos, em janeiro de 2021. Fora a participação dela, o longa de estreia do canadense Phil Connell é, formulaico, apesar de bem-intencionado, e repleto de soluções fáceis para problemas que demandavam mais observações.
Não há dúvidas de que o filme é de Leachman, no papel de Margaret, a avó senil porém ácida do protagonista, Russell (Thomas Duplessie), um aspirante a ator que não consegue se encontrar na vida. Depois de romper com o namorado, Justin (Andrew Bushell), ele procura a avó na pequena cidade onde ela mora. A ideia é usar o antigo carro dela para se matar mas, por acaso, ela mesma acaba salvando o neto.
Depois disso, ele pensa em fugir, mas o estado de saúde da mulher o faz ficar – o que não o impede, de qualquer forma, de sacar dinheiro da conta dela, falsificando sua assinatura. Sem muita opção, na pequena cidade, ele começa a frequentar o único bar local que é simpático ao público gay, comandado por uma lésbica linha dura mas de bom coração, Hannah (Kate Messina). No local, ele começa a se apresentar com drag queen e se envolve com o garçom, Zach (Kwaku Adu-Poku).
Connell, que também assina o roteiro, lida com tudo isso de maneira quase casual, sem se aprofundar em nenhum personagem – nem no protagonista. Quais as motivações de Russell? Por que ele queria se matar? Apenas por que se separou? Tudo se resolve de maneira relativamente fácil, especialmente o envolvimento dele com Zach que, por um momento, tem um complicador, mas logo se deixa a situação de lado.
Não fica clara a época em que se passa a história – provavelmente em algum momento dos anos de 1990, dada a ausência de celulares e internet, embora a estética seja bastante contemporânea. A homossexualidade do personagem e seu trabalho como drag queen não causam nenhuma questão naquela pequena cidade – o que é de se estranhar, especialmente três décadas atrás.
Ainda assim, Leachman traz nuance e dignidade à sua personagem, uma figura que poderia cair na caricatura ou na comiseração. Ela dá força e humanidade àquela mulher cuja mente já não é mais a mesma, mas detém os momentos de felicidade e sonhos do seu passado.
