Se vivesse em nosso tempo, Pier Paolo Pasolini (1922-1975) quase certamente teria dificuldade de lidar com o que chamamos de “polarização”. Porque ele era, antes de mais nada, a síntese de posições aparentemente contraditórias, recusando o maniqueísmo dos simplistas. Assim, ele podia ser ao mesmo tempo marxista e cristão, poeta e polemista, terno e áspero, quase santo e muito profano, especialmente em seus belos, incômodos, inesquecíveis filmes, capazes de acomodar a complexidade da vida sem negar seus aspectos mais nefastos.
Cem anos depois de seu nascimento, é uma ótima oportunidade poder rever alguns dos títulos magistrais de sua obra, como sua contundente estreia na direção, Accattone - Desajuste Social (1961) - um olhar sobre deserdados, marginais, desocupados, pequenos criminosos, prostitutas e trabalhadores miseráveis da periferia de Roma, menos de 20 anos após o final da II Guerra.
Em cenários não raro desoladores, em ruas atulhadas ainda de escombros, ao lado dos quais se construíram conjuntos habitacionais operários, que convivem com casinhas precárias, estes personagens levam sua vida, com fome e pouca esperança. O protagonista é Accattone (Franco Citti), um cafetão que já viveu melhores dias e tem na bela Maddalena (Silvana Corsini) seu ganha-pão.
Diz-se que o filme seria como um último representante do Neorrealismo, o que corresponde à verdade no que diz respeito a um realismo cru que se nutre de situações nada edificantes, acontecidas entre estes habitantes do andar de baixo da sociedade italiana - e que não tem utopias pessoais, políticas ou religiosas para consolá-los de um cotidiano sombrio.
Há uma forte carga de machismo, do que chamaríamos hoje de “masculinidade tóxica”, em Accattone e seus comparsas, que passam os dias à toa num barzinho de periferia, tornando-se uma espécie de versão lúmpen dos amigos de Os Boas-Vidas, de Federico Fellini. Mas o interesse de Pasolini nessas pessoas tem outro foco, outro tom. Ele volta seu olhar a seus problemas, seus sentimentos, suas vilanias, com sincera curiosidade e ausência de julgamento. Quer colocar em primeiro plano uma parcela da humanidade que o cinema não costumava olhar, ainda mais com este nível de proximidade.
Em Accattone… (dispensando-se aqui a menção ao desnecessário subtítulo brasileiro), Pasolini faz um estudo de personalidade e de luta de classes, mergulhando, com o personagem, em uma espiral de decadência e ruína, momentaneamente iluminada pela presença da ingênua Stella (Franca Pasut), em quem Accattone parece enxergar, a princípio, o vestígio de uma pureza que se tornou estranha para ele. Uma pureza que não tem como subsistir num ambiente tão desvalido e sórdido, cujas tintas Pasolini traça com nitidez, expondo as entranhas da exploração do homem pelo homem e as raízes de seu pensamento político.
Accattone vive uma crise moral, mesmo uma rejeição à própria sordidez, um esboço de autocrítica para a qual ele não encontra nem parceiro nem guarida - quem pode escutá-lo e compreendê-lo ?. Como tantos outros homens e mulheres de seu meio, ele sabe que não tem direito a qualquer fantasia - por isso mesmo, quando sonha, é a morte que vem ao seu encontro. O filme representa, assim, a entrada de Pasolini neste universo marginal que ele frequentava e conhecia muito bem e que desenvolveria ainda melhor em obras posteriores, como o magnífico Mamma Roma (1962).
