19/08/2026
Drama

Drive my car

Yusuke e Oto são um casal que, há anos, criou uma intimidade e rotina toda peculiar. Quando fazem sexo, Oto inventa histórias que depois o marido completa, criando um jogo de fantasia e sedução. Um súbito incidente muda a vida do casal e Yusuke aceita dirigir uma peça de Tchecov em Hiroshima. Lá, contra a sua vontade, terá que aceitar a presença de uma motorista. Misaki, para dirigir seu carro. Na Netflix.

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Uma aparente simplicidade percorre os filmes do também escritor Ryusuke Hamaguchi, que vêm se especializando em obras corais, alternando pontos de vista de um número reduzido de personagens de maneira a produzir um efeito caleidoscópico, multifacetado, como um diamante.
 
Nunca antes - nem em Asako I & II e Roda do Destino - o diretor e roteirista japonês levou tão longe seu estilo parcimonioso na entrega de detalhes, sutil e lento no desenvolvimento, hipnótico no envolvimento que é capaz de produzir quanto em Drive My Car, um drama que desdobra suas camadas de modo a causar emoção de uma forma totalmente peculiar. Ou seja, com economia narrativa e discrição técnica, com uma fotografia limpa, clara e minimalista que é inversamente proporcional à intensidade crescente nos diálogos e no envolvimento dos personagens.
 
Uma espécie de longo prólogo apresenta o casal formado pelo ator e diretor teatral Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) e sua mulher, a roteirista de TV Oto (Reika Kirishima). Trata-se de um relacionamento que já dura vários anos, nutrido por uma intimidade física intensa, temperada pela torrente verbal de Oto, uma espécie de Scherazade erótica, que se compraz em inventar histórias enquanto faz sexo, criando com o marido um jogo em que ele completa as lacunas.
 
Um dos pontos fortes da maestria da direção de Hamaguchi está na maneira como entrega parcimoniosamente as informações sobre seus personagens, o que modula no filme as batidas de seu coração. A maneira como algumas tragédias se inserem na narrativa, especialmente, traduzem os sobressaltos da trajetória de Yusuke, a partir do momento em que aceita conduzir uma montagem de Tio Vânia, de Anton Tchecov, na cidade de Hiroshima.
 
É neste ponto que entra na história a motorista Misaki (Toko Miura) que, por uma questão contratual, deverá conduzir o carro de Yusuke, um velho Saab, nos percursos entre sua residência temporária e o teatro. 
 
A todo momento, simbolismos potentes saltam no enredo, que requer espectadores atentos e pacientes para não descolar os olhos e ouvidos da tela em suas três horas de duração - que se justificam e são compensadoras sob todos os pontos de vista. Atores falam línguas diferentes - inclusive, há uma atriz muda (Hiroko Matsuda) que usa linguagem de sinais - na montagem conduzida por Yusuke, evocando a Babel, não só geográfica mas também emocional da humanidade. Tchecov, com sua simplicidade enganosa e seu apelo profundo ao sentido da vida, também não é uma escolha casual. 
 
Centrando seu eixo especialmente em quatro atores - há também o jovem ator Koji (Masaki Okada) -, Drive My Car expande o argumento inicial de um conto do escritor Haruki Murakami de modo a compor um mosaico de emoções complexas em torno do relacionamento dos casais, dos traumas de família e da imperiosa necessidade de escolhas para seguir em frente com a vida. Este conjunto é colocado de pé pela direção magistral de Hamaguchi, revelando-se um literato no cinema com uma profusão de diálogos profundos e um encadeamento preciso das situações dramáticas de seu filme. Sua direção de um conjunto de atores magníficos, certamente, não fica atrás, especialmente o trio Hidetoshi Nishijima, Reika Kirishima e Toko Miura - cuja intensidade vibra na memória muito depois que o filme terminou e estamos envolvidos na reconstituição de tudo a que assistimos dentro de nós.
 
Indicado a 4 Oscars - filme, direção, filme internacional e roteiro adaptado - , depois de ter sua estreia mundial no Festival de Cannes 2021, Drive My Car teve uma trajetória semelhante à de Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho, que colheu a Palma de Ouro e 4 Oscars em 2019, com indicações quase idênticas às do drama japonês. Mas este acabou vencendo apenas como filme internacional. 
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