04/07/2026
Drama

Farrapo Humano

Don é um escritor que sofre de bloqueio criativo e usa isso como desculpa para se manter o tempo todo embriagado, por mais que seu irmão e sua namorada insistam para que ele abandone o vício.

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Poucas vezes Hollywood foi tão sincera em um tema espinhoso como Farrapo Humano. Geralmente, os filmes mainstream tomam questões – como o alcoolismo aqui – para o lado da superação romântica do problema, marcada por uma bela lição para o público. E esse tipo de abordagem ganha o Oscar. Por isso, é uma surpresa ainda maior que o longa de Billy Wilder, com sua honestidade desarmadora, tenha recebido a estatueta de Melhor Filme, em 1946 – junto com as de diretor, ator, para Ray Milland, e roteiro. Não que não tenha qualidades, mas não é tipo de produção que tcostuma ter esse tipo de reconhecimento.
 
Milland é Don, um escritor com uma queda por bebidas alcóolicas e bloqueio criativo, uma combinação que tem tudo para destruir sua vida. Tanto seu irmão, Wick (Philip Terry), quando a namorada, Helen (Jane Wyman), fazem de tudo para salvar sua vida – mas a questão é: ele quer ser salvo? Enquanto não se conscientizar de que está rumando para o fundo do poço, que precisa se tratar, nada vai adiantar. O filme se passa durante um final de semana, quando ele deveria viajar para fora da cidade, onde ficaria longe das bebidas, mas ele acaba se enfiando num bar, de onde não pretende sair.
 
Conta-se a história que Wilder havia acabado de trabalhar com o autor de policiais Raymond Chandler, no roteiro de Pacto de Sangue, e ficou impressionado ao ver o escritor, um alcóolatra que havia acabado de se recuperar, correr para uma garrafa depois de terminar o longo processo de redação do filme. Tentando entender tudo isso, o diretor resolveu adaptar o livro de Charles R. Jackson, que também trata da questão.
 
É impressionante como Farrapo Humano não faz concessões. Há cenas dolorosas de se ver, como quando Don procura desesperadamente pelo seu apartamento a garrafa que escondeu em algum lugar, do qual não se lembra. Está no lustre da sala, como sabemos, mas ele não. Há uma imagem impressionante quando ele está agachado revirando algum canto e, de baixo para cima, a câmera enquadra tanto ele quando o lustre no teto.
 
Outro momento genial, num flashback: Don está numa ópera, na qual, no palco, são servidas taças com bebidas. Ele se revira em sua poltrona, seus olhos acompanham hipnotizados o movimento das taças nas mãos dos atores e atrizes. Ele chega ao seu limite e sai da plateia ainda no meio do primeiro ato, para ir embora. Uma confusão na chapelaria é o que o fará conhecer Helen.
 
Wick e Helen são a imagem da esperança, mas também da exaustão. Fazem de tudo, mas estão cansados de lidar com uma pessoa que não quer procurar ajuda para seu problema. Há também Nat (Howard Da Silva), o atendente do bar que o protagonista frequenta regularmente. O sujeito o critica, ao mesmo tempo em que serve mais uma dose, e, no balcão, as marcas de copo mostram a passagem do tempo e o processo de embriaguez do protagonista.
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