É bem provável que o “tabu” ao qual se refere o título da série Taboo não seja exatamente – ou melhor, exclusivamente – a relação incestuosa entre os meio-irmãos James Keziah Delaney (Tom Hardy) e Zilpha Geary (Oona Chaplin). Numa Inglaterra do começo do século XIX, em transformação com a ascensão do capital na forma da Companhia das Índias Orientais, o protagonista volta da África, recebe a herança do pai que morreu há pouco e um pedaço de terra valioso, num ponto estratégico, na Colúmbia Britânica, e com isso desafia o poder. Um mestiço desafiando a classe alta? Eis um tabu ainda maior.
Delaney, filho de um inglês magnata da navegação e uma nativa americana, esteve na África, onde se envolveu com rituais xamânicos, viu um navio negreiro afundar e aprendeu uma língua misteriosa. Sua chegada em Londres desagrada a todos – exceto à meia-irmã casada, que nutre uma paixão correspondida, mas, obviamente, reprimida. Há também uma criança envolvida, cuja criação, por outra família, Delaney sempre bancou e que pode ser fruto do incesto.
Escrita por Steven Knight (roteirista de Senhores do Crime) a partir de uma ideia de Hardy e seu pai, Edward “Chips” Hardy, Taboo combina referências de Charles Dickens a Joseph Conrad, transformando Delaney tanto num Kurtz quanto num Marlowe que volta à Europa após a experiência na África. A direção é assinada por Anders Engström e Kristoffer Nyholm.
Sir Stuart Strange (Jonathan Pryce), da Cia das Índias Orientais, acredita que Delaney está mancomunado com os americanos, e arma um plano para o matar, enquanto ele compra um navio assombrado e o reforma. E isso não é nem metade da série. Entra em cena, mais tarde, a melhor personagem feminina aqui, a atriz de teatro Lorna Bow (a impressionante irlandesa Jessie Buckley), que alega ser a viúva do pai de Delaney e clama sua parte na herança – tudo havia ficado para o protagonista, que imediatamente fez um testamento deixando tudo para os Estados Unidos, o que torna sua morte pouco lucrativa para seus inimigos.
O tabu de Delaney é investir contra a poderosa Cia das Índias Orientais, apoiar os EUA, enquanto o planeta acumula capital. O ritmo da narrativa é cadenciado, e nem sempre tudo fica claro, o que mantém um certo mistério, apoiado na dinâmica de um mundo rico e de ostentação e do barro que cerca a região onde os navios estão ancorados – repletas de mendigos, bêbados e prostitutas (a alemã Franka Potente tem um papel crucial como uma delas).
Mas não se engane. O show é de Hardy, pensado e calculado para ele brilhar. O que não é ruim, pois como um dos melhores atores de sua geração, ele resmunga como ninguém – basta ver Mad Max – e aqui faz isso e algo mais, munido de um inseparável chapéu (seu verdadeiro coadjuvante) e tatuagens tribais (que não são as suas da vida real). Sua presença constante em cena é magnética, especialmente porque o personagem passa o tempo todo lutando contra sua dimensão trágica.
