10/09/2026
Romance Drama

A pior pessoa do mundo

Julie estuda medicina mas não está certa de ficar nessa profissão. Muda para psicologia, depois fotografia, mas nada a satisfaz. Também no amor ela sente dúvidas, mesmo que seu relacionamento com Aksel, um desenhista de quadrinhos mais velho, seja satisfatório em muitos sentidos. Até o dia em que ela conhece o padeiro Eivind.

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Diretor versátil, mais conhecido por dramas como Mais Forte que Bombas e Oslo, 31 de Agosto, o norueguês Joachim Trier investe numa desconstrução da comédia romântica a partir do relato de amadurecimento de uma notável protagonista feminina, Julie (Renate Reinsve) - que, desde já, pode inscrever-se na galeria das musas de várias gerações, de Annie Hall às personagens vividas por Meg Ryan, Anne Hathaway, Alicia Vikander ou Anaïs Demoustier, recoberta por uma aura de verdade e melancolia.
 
Às vésperas de completar 30 anos, Julie tem mais dúvidas do que certezas. Cursa medicina e até gosta, mas se vê pensando - por que não psicologia? Não muito tempo depois, outro impulso a leva a abraçar a fotografia. Mas a insatisfação continua. E o mesmo acontece com sua vida amorosa.
 
Esta dança de sentimentos e emoções poderia transformar Julie numa personagem fútil ou desinteressante, não fossem o roteiro, assinado por Trier e Eskil Vogt e a interpretação da atriz tão repletos de nuances que desviam a história dos chavões cuidadosamente empilhados nas produções mainstream do gênero.
 
Não que a trajetória de Julie seja isenta de situações que preenchem filmes semelhantes - mas a maneira honesta como se lida com elas é que confere uma graça especial à produção nórdica, que concorre a dois Oscars, roteiro original e filme internacional. 
 
Julie não é uma heroína convencional, no sentido de que não vacila diante de suas hesitações e desejos, arriscando errar com uma notável coragem - e isso mexe com as emoções do público, que pode eventualmente discordar da decisão dela de abandonar Aksel (Anders Danielsen Lie), um homem maduro, apaixonado mas algo controlador, e tentar um relacionamento com Eivind (Hebert Nodrum), que ela acaba de conhecer.
 
O filme soma densidade de maneira ritmada, ao sabor das experiências de Julie, cujo compromisso consigo mesma é, em si mesmo, algo de admirável. Ela resiste às manipulações e expectativas de todos ao seu redor, ousando viver uma vida simples, enquanto em seu próprio íntimo ela não sente a certeza de suas escolhas. Porque é de escolhas que fala o filme e da irreversibilidade não só de tomá-las, mas das consequências de todas elas ao longo da vida de cada um/uma. 

Desdobrando sua história em 12 capítulos, um prólogo e um epílogo, A Pior Pessoa do Mundo narra as pessoas como romances, se escrevendo a cada passo, em todas as suas angústias, incertezas, descobertas e alegrias. Duas sequências em especial vinculam o filme ao melhor da linguagem cinematográfica, rompendo com o realismo e flertando com a magia, num caso, e o delírio, no outro: quando Julie atravessa a uma Oslo repentinamente paralisada, com tempo suspenso, para encontrar Eivind, e quando ela e amigos embarcam numa experiência com cogumelos alucinógenos. Conjugando estas muitas camadas é que o filme atinge uma complexidade que se pode facilmente compartilhar - sendo mulher, mais ainda. 
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