04/07/2026
Drama

A Montanha dos 7 Abutres

Chuck Tatum já foi um jornalista famoso em Nova York, mas sua vida desregrada acabou com sua carreira. Trabalhando num pequeno jornal de Albuquerque, ele vê sua grande chance ao encontrar um homem preso no interior de uma montanha, resolvendo explorar o caso até as últimas consequências.

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Billy Wilder, que trabalhou em tabloides em Viena e Berlim na década de 1920, antes de imigrar para os EUA, deve ter tirado dessa experiência muito da inspiração para o noir A Montanha dos 7 Abutres, que tem como protagonista um jornalista, Chuck Tatum (Kirk Douglas), repórter decadente que encontra no sensacionalismo a grande chance para sua reascensão.
 
Depois de muito rodar, ele encontra trabalho – na verdade, ele força o editor/dono do jornal a lhe dar um cargo – numa pequena publicação na pequena Albuquerque. Um ano depois, sem qualquer destaque ou novidade, ele é mandado, na companhia de um jovem fotógrafo, Herbie (Robert Arthur), para outra cidade para cobrir uma competição de caça a cascavéis. Mas, no meio do caminho, encontra sua grande chance.
 
Num posto de gasolina, aparentemente abandonado, descobre que dono do local ficou preso num buraco dentro da montanha que dá o título nacional ao filme. Leo Minosa (Richard Benedict) entrou lá em busca do ouro que era enterrado pelos nativos junto com seus mortos. Suas pernas ficaram presas, ele não consegue sair e ninguém consegue entrar para o resgatar, pois o buraco é muito pequeno. Para tirá-lo dali, é preciso fazer um furo por cima, com cuidado, pois as pedras podem cair. 
 
Tatum vê em Minosa sua chance de ouro. É uma história pronta para fisgar o público – mas ele também pode enfeitá-la para se tornar ainda mais atrativa. Nasce disso um circo literalmente, envolvendo a mulher de Leo, Lorraine (Jan Sterling), que também está atrás de uma chance para abandonar o marido e sair dali.
 
O roteiro, escrito por Wilder e Lesser Samuels e Walter Newman, é o veículo perfeito para o diretor exibir as mais altas doses do cinismo típico de sua obra. O desdobramento do fato ganha contornos grandiosos. Leo se torna uma figura querida da população de todo o país. As pessoas vêm de longe para o ver, músicas são compostas em sua homenagem e sua lanchonete, administrada pela mulher, nunca faturou tanto. Todos parecem felizes com isso – e não há muito interesse, especialmente mercadológico, em tirar o rapaz de dentro da montanha. As únicas pessoas que sofrem com a situação são os pais dele (John Berkes e Frances Dominguez).
 
No jornalismo há uma frase famosa – que se ensina inclusive nas faculdades: se um cachorro morder um homem, não é notícia, mas se um homem morder o cachorro, é. Leo não mordeu, figurativamente, é claro, o cachorro, mas Tatum agiu como se o rapaz o tivesse feito, criando uma notícia carregada no conteúdo humano e no sensacionalismo, a partir de um incidente triste. Wilder faz aqui um retrato pautado pelo cinismo mas, nem por isso, distante da realidade, de uma mídia desesperada por atrocidades para vender jornal (hoje é por likes, compartilhamento e engajamento). Um tipo de imprensa que ficou conhecida por outra expressão também famosa no métier jornalístico: espreme que sai sangue.
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