06/06/2026

Maristela é atormentada por um pesadelo constante: um monstro que emerge do riacho Pajeú. Procurando resolver essa situação, a jovem professora tenta descobrir a história do riacho, às margens do qual nasceu Fortaleza.

post-ex_7
Pajeú, escrito e dirigido por Pedro Diógenes, começa com um pesadelo: uma mulher sonha com um monstro saindo de um riacho pronto para a atacar. É sob esse signo do incompreensível e do onírico que o filme se constrói. A personagem, como descobrimos depois, é Maristela (Fátima Muniz), jovem professora de crianças, que passa a viver angustiada com a opressão desses pesadelos que se tornam constantes.
 
Pajeú é um córrego que passa em frente à escola onde ela trabalha. Fortaleza foi fundada às margens dele, mas hoje, como diz uma colega da protagonista, é um esgoto a céu aberto. Conforme Maristela descobre na internet, o nome do riacho significa “rio do curandeiro”, mas, se ele cura, por que a atormenta?
 
Diógenes, que tem no currículo filmes como Inferninho (codirigido com Guto Parente), começa Pajeú como um terror psicológico que se torna físico. O mal-estar emocional de Maristela domina seu corpo. Nos pesadelos, a água se torna um elemento constante, sempre opressor, um afogamento. A água escura e suja do riacho não ajuda a mudar essa sensação.
 
A certa altura, a jovem, tentando superar sua angústia, começa a resgatar a história do Pajeú conversando com desconhecidos e desconhecidas na rua, como uma pesquisa. Pouquíssimos conhecem o riacho, alguns já ouviram falar o nome, mas nem sabem o que é. Nesse dispositivo, muitas vezes documental, Diógenes aborda um tema complexo: a memória coletiva e seu apagamento.
 
O sumiço do riacho, tanto fisicamente, como na memória dos moradores e das moradoras de Fortaleza, chega a ser sintomático do nosso tempo e de nosso país, no sentido do esquecimento da história, dos caminhos que nos levaram até onde chegamos. É, num certo sentido, a figuração do apagamento de processos históricos longos e apenas a constatação de seus resultados – como o nosso presente. Com pouco mais de 70 minutos, Pajeú é um filme sagaz na sua compreensão da intersecção entre histórias pessoais e história nacional.
 
As pessoas ao redor de Maristela, como seu amigo (Yuri Yamamoto), começam a sumir – como o riacho. As imagens dele vazio, sujo e abandonado à própria sorte são um reflexo, não apenas do estado de espírito da personagem, como também do nosso próprio esquecimento. Nesse sentido, o diretor constrói um filme que tem muito a dizer sobre o estado das coisas no país neste momento.
 
post