04/07/2026
Drama

Mar de Dentro

Manuela é uma publicitária de sucesso, que fica grávida do namorado. Num primeiro momento, ela cogita fazer um aborto, mas ele a convence seguir com a gravidez. Os dois iniciam um relacionamento mais próximo, mas os planos são interrompidos por uma tragédia.

post-ex_7
Os dilemas e desafios da maternidade são vistos por um prisma particular em Mar de Dentro, primeiro longa de ficção de Dainara Toffoli, que tem em seu currículo o documentário Dona Helena e as séries Manhãs de Setembro e Lili, a Ex. Aqui, Mônica Iozzi interpreta Manuela, uma publicitária de sucesso cuja vida é transformada ao se descobrir grávida do namorado, Beto (Rafael Losso).
 
A primeira questão que surge é se ela quer mesmo ter esse filho. Manuela pensa em sua carreira, que está em ascensão, e no peso de interromper tudo para ter um bebê e cuidar dele – especialmente nos primeiros meses, com a licença-maternidade. O retrato que o longa pinta da personagem é de uma mulher viciada em trabalho, que parece ser sua fonte primária de prazer. Ela acaba convencida por Beto a seguir em frente com a gravidez, e os dois decidem morar juntos.
 
Mar de Dentro, embora bem-intencionado, parece ser um filme cheio de panfletos e ideias pré-concebidas que tentam encaixar uma narrativa dentro de si – e não o contrário, as questões surgindo da narrativa. O roteiro, assinado pela diretora e Elaine Teixeira, traz temas contemporâneos e urgentes para as mulheres, mas nem sempre encontra a melhor maneira de os discutir, resultando um tanto artificial, criado apenas para efeito.
 
Manuela acaba sendo obrigada a criar o filho sozinha, com eventuais ajudas da irmã (Gilda Nomacce), enfrenta os primeiros dias depois do parto. Os sogros (Zécarlos Machado e Magali Biff) a visitam, tentando impor regras e maneiras de criar o filho – a avó o presenteia com uma Bíblia ilustrada para crianças, por exemplo. Como boa parte dos personagens e situações aqui, eles aparecem mais como um propósito narrativo do que como figuras humanas.
 
A relação que Mar de Dentro tem com sua protagonista é um tanto passiva-agressiva. Às vezes, ela é uma mulher boa, mãe esforçada e exemplar. Em outros momentos, é retratada como egoísta e mesquinha – delegando o cuidado do filho a duas babás. Seu privilégio, e o reconhecimento deste, de mulher branca de classe média não passa batido, embora também não seja muito bem desenvolvido na trama.
 
Há momentos em que o filme é cruel com Manuela, como durante uma visita à pediatra, na qual a protagonista já está bastante irritada por ter tido que sair do trabalho, enquanto a diarista/babá é quem sabe mais sobre o menino do que a própria mãe. É claro que Mar de Dentro é um filme repleto de propósitos nobres – como mostrar as dificuldades de uma mulher no mercado de trabalho, ou como as mães podem acabar tendo suas existências confinadas a esse papel – mas também está em busca de uma maneira mais orgânica de lidar com situações cotidianas que não precisam de tanta pompa para ser abordadas.
post