04/07/2026
Drama

Vitalina Varela

Abandonada pelo marido em Cabo Verde, onde mora, Vitalina Varela esperou por décadas que ele mandasse dinheiro ou uma passagem para ela o encontrar em Portugal. Até o dia que, indo por conta própria, ao chegar lá descobre que ele morreu há alguns dias. Na Filmicca.

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Em seu cinema, Pedro Costa encontra poesia e beleza na miséria, seja ela humana ou material – o que não quer dizer que ele, simplesmente, estetize o sofrimento alheio. Pelo contrário, ele traz à tona a denúncia da opressão e exploração fazendo um cinema repleto de vitalidade e força. Seus filmes – como Juventude em Marcha, No Quarto de Vanda, Cavalo-Dinheiro – colocam ao centro personagens que raramente têm voz no cinema ou, quando a têm, é de uma maneira condescendente.
 
A Vitalina Varela, que dá título ao filme, é, como praticamente todos seus personagens, “interpretada” por uma atriz amadora que vive sua própria história na tela. Com rigor formal e um minimalismo cru, Costa, mais do que criar narrativas, captura momentos de vida. Junto com o diretor de fotografia Leonardo Simões – seu parceiro em outros diversos projetos – cria imagens que se dão no lusco-fusco, num intervalo entre a luz e a escuridão, revelando na mesma medida em que escondem.
 
Vitalina, que apareceu em Cavalo-Dinheiro e aqui, também é creditada como corroteirista, ao lado do diretor, é uma cabo-verdiana que se mudou para Portugal à procura de seu marido. Este a deixara em Cabo Verde, deslocando-se para Lisboa, com a promessa de enviar dinheiro ou buscá-la um dia – mas nada disso aconteceu. Depois de décadas de espera, ela acaba conseguindo viajar sozinha e espera confrontá-lo.
 
Ao chegar, no entanto, descobre que ele morreu e que o enterro já aconteceu há três dias. “Aqui em Portugal, não há nada para ti”, diz a pessoa que a recebe assim que desce do avião. “A casa dele não é tua casa. Volta para tua terra.” Mas ela não volta, continua seus passos rumo a lugar que desconhece. Ainda assim, encontra uma pessoa conhecida: um padre, que carrega em si um enorme peso do passado, sentindo-se culpado de um acidente que aconteceu em Cabo Verde e matou várias pessoas. O personagem é interpretado por Ventura – um ator presente em vários filmes do diretor.
 
Vitalina também se surpreende com a reação do padre, que acredita que o marido dela era um sofredor, uma vítima que deve ser respeitada – desconhecendo todo o mal que o homem fez para ela no passado. Ela é a verdadeira vítima aqui, e, ainda assim, não se verga ao sofrimento. Uma bela figura, uma mulher de porte, ela enche a tela com seu olhar e desafiador, que não se curva.
 
A jornada da personagem-título é dolorosa – ainda mais quando se lembra que essa é a história de Vitalina Varela, que passou por toda a opressão e sofrimento que a protagonista do filme enfrenta. E o fato de que ela e Costa são capazes de encontrar beleza e luz – especialmente na cena final, repleta de um tom de esperança – nessa jornada transforma a experiência do filme em algo ainda mais forte.
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