Em tempos de reclusão e isolamento, não é difícil encontrar pontos de identificação com o personagem do drama russo Prisão Domiciliar, dirigido por Aleksey German Jr. (Dovlatov). Nele, um professor universitário de meia-idade, David (Merab Ninidze), é acusado de desvio de verbas e passa o tempo fechado em seu apartamento grande e decadente ao lado de sua mãe idosa, interpretada por Roza Khayrullina.
Talvez esse seja o filme mais direto e acessível de German Jr., e também o mais crítico ao regime russo marcado por corrupção e violência, embora não o faça de maneira clara e direta, pois seu protagonista não tem qualquer relevância política, nem é um dissidente. Seu problema foi fazer um desenho do prefeito de sua cidade mantendo relações sexuais com um avestruz. Prendê-lo por isso sujaria (ainda mais) a imagem do governo, então fabrica-se uma acusação de desvio de dinheiro de uma conferência internacional que ele estava organizando.
A tornozeleira o impede de ir além de seu jardim, onde leva o cachorro para passear. Em casa, os diálogos são com a mãe, e o tempo é matado com livros. David é professor de literatura russa, especialista no final do século XIX e primeira metade do XX. Nas paredes de sua casa, há pôsteres em homenagem a Osip Mandelstam e Anna Akhmatova. Do lado de fora, pessoas, provavelmente pagas, param em frente à sua janela, para o xingar de Professor Mentiroso.
Os filmes de German Jr. são marcados por algo de surreal, por personagens que, em algum momento, se descolam da realidade, entram num mundo onírico. Em Prisão Domiciliar, no entanto, isso jamais acontece. É um filme com os dois pés na realidade de um mundo cruel. O que não quer dizer que não tenha algum humor, especialmente dada a ironia da situação.
O diretor, que assina o roteiro com Maria Ogneva, planejava esse filme há algum tempo, mas seu lançamento agora – sua estreia foi no Festival de Cannes – ressoa de uma maneira sem igual. As circunstâncias que levaram boa parte do mundo ao confinamento são diferentes das de David, mas é inegável que Prisão Domiciliar gera uma leitura ligada ao nosso tempo, e também a se pensar como será a arte que faremos e consumiremos daqui para a frente.
