02/07/2026
Comédia dramática

A Noite do Triunfo

Etienne Carboni é um ator maduro que há muito não tem as oportunidades profissionais com que sonha. Ele aceita o trabalho de comandar uma oficina de teatro dentro de uma prisão. A princípio desanimado com as condições, ele termina empolgado com um projeto que parece maluco: montar "Esperando Godot", de Samuel Beckett, com seus alunos detentos. Na Reserva Imovision.

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A história por trás deste filme é mais um daqueles casos em que a vida supera a arte - e não vamos aqui dar spoiler sobre o final surpreendente. De todo modo, basta que se saiba que os fatos aqui recriados aconteceram de fato, há alguns anos, na Suécia.
 
Etienne Carboni (Kad Merad) é um ator maduro, que já parece ter vivido o auge de sua carreira. Neste momento, ele aceita o trabalho de coordenar uma oficina de teatro dentro de uma prisão. O quadro é desolador: ele quase não tem alunos - não mais do que cinco - e eles estão ali mais para passar o tempo do que outra coisa. A proposta pedagógica, herdada de seu antecessor, também não entusiasma Etienne - não se espera mais dele do que ensinar sua classe a declamar algumas fábulas contendo uma moral no fim.
 
Olhar atento, Etienne percebe que o traço comum na vida de seus alunos - Nabil (Saïd Benchnafa), Jordan (Pierre Lottin), Moussa (Wabinlé Nabié), Patrick (David Ayala) e Alex (Lamine Cissokho) - é uma expectativa sem fim de que os dias passem, de que sua pena termine, de que algo de bom lhes aconteça no futuro. Uma situação que dá o mote ideal para que Etienne imagine um projeto ambicioso e aparentemente maluco - encenar Esperando Godot, de Samuel Beckett, com seu quinteto irreverente.
 
A ideia inusitada, não sem algum esforço, ganha adeptos, primeiro entre os próprios detentos, depois junto à diretora da prisão, Ariane (Marina Hands). Em seis meses, o diretor terá que transformar seus alunos inexperientes, de escolaridade precária e perfil emocional instável em atores capazes de dar conta de um espetáculo com um texto e concepção sofisticados. Uma ambição que tem conotações diferentes para cada um dos envolvidos, inclusive Etienne.
 
No curso destes meses, acontece um pouco de tudo, hesitações, brigas, desistências e finalmente a troca de um ator - sai Nabil, entra Kamel (Sofian Khammes). E o russo Boiko (Alexander Medvedev), que fazia faxina, acaba engajado como assistente do diretor. 
 
À primeira vista, trata-se de um projeto redentor para ambas as partes, só que não é só isso. O filme, dirigido e roteirizado pelo também ator Emmanuel Courcol, vai para outros lugares. Encenar a peça e não só uma vez, como se previa no início, mas algumas vezes, numa turnê, é apenas o ponto de partida de uma história que flerta com o significado de superação e liberdade. E o melhor é que, a cada passo desta jornada, infiltra-se uma honestidade que não busca ser edificante. Ao contrário, cada um dos personagens é mostrado em suas fragilidades e contradições, sem que se pense necessário apontar qual foi o crime que levou cada um destes novos atores para atrás das grades. Por conta disso também, infiltra-se na história, num subtexto sutil, uma discreta reflexão sobre o sistema prisional e os conceitos de justiça e recuperação, sem nenhum toque de piedade.
 
Kad Merad, o ator franco-argelino que muitas vezes é visto em comédias infames de sucesso, tipo A Riviera Não é Aqui, sob medida para o gosto de um grande público francês mas não muito no resto do mundo, aqui entra em registros mais sofisticados, dramáticos e irônicos, abraçando um personagem em crise capaz de um grande e poético salto final - e mais não se diga. A história real em que se baseia o filme, como já disse, superou com vantagens a ficção e mesmo tudo o que Samuel Beckett tinha em mente quando criou Esperando Godot. O próprio Beckett aprovou o que aconteceu nos anos 1980 com sua peça na vida real, num palco da Suécia, com o ator Jan Jönson.
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