Possivelmente uma das obras-primas de Carol Reed, O Ídolo Caído, sempre foi obscurecido pelos filmes mais famosos (e tão bons quanto) da parceria entre o diretor e o escritor Graham Greene – O 3o Homem e O Nosso Homem em Havana. Porém, merece ser (re)descoberto com sua estreia em serviço de streaming no Brasil.
A dupla Reed e Greene nunca esteve tão afinada quanto aqui, partindo de um conto do escritor e contando uma história sobre o olhar e a percepção. É um filme sobre como nosso ponto de vista sempre será parcial, não importa quando, como ou onde – pois já não é mais possível ter uma visão da totalidade das coisas. Isso é materializado no garotinho Phillipe (Bobby Henrey).
Em um de seus romances mais famosos, Pelos Olhos de Maise, Henry James escreve na introdução que certas personagens infantis (como essa presente no título do livro) veem mais do que compreendem, e esse é o mesmo “mal” de Phillipe, um francês, morando na embaixada da França na Inglaterra do pós-guerra. Esperando uma nova babá, e enquanto os pais estão fora da cidade, ele se afeiçoa ao mordomo Baines (Ralph Richardson), de quem se torna um amigo próximo.
O casamento com a sra Baines (Sonia Dresdel) está em crise, e o mordomo tem um caso com uma estenógrafa da embaixada, Julie (Michèle Morgan), a quem ele apresenta a Phillipe como sua sobrinha. A esposa é pintada, pelo olhar do menino, como uma megera – maltratando a ele e sua cobra de estimação.
Quando uma morte acontece na embaixada, o menino vê apenas um lance dos fatos, mas, ainda assim, está disposto a salvar o mordomo, que está sendo investigado. Dotado de toda boa vontade, mas também de uma incapacidade de mentir convicentemente, o menino mais incrimina o amigo do que o salva.
O Ídolo Caído nos mostra, na figura de Phillipe, que sempre haverá detalhes que nos escapam aos olhos. O garoto entra num estado emocional de puro tormento, sua ansiedade só piora a situação e Reed captura isso incrivelmente com ângulos de câmera que rementem ao expressionismo alemão, com imagens tortas, elementos pouco convencionais. Greene, por sua vez, também era mestre em criar tipos atormentados – do escritor de Fim de Caso ao padre de O Poder e A Glória. O garoto aqui é mais um nessa galeria.
Mas o filme não funcionaria sem a interpretação impressionante do jovem Henrey, que só faria mais um longa depois. Diz a lenda que Reed teve de fazer várias peripécias para conseguir a atuação do menino – e que nem sempre ele está contracenando com quem é mostrado no filme, por isso há tantos cortes. Mas esse detalhe pouco importa. Tudo funciona à excelência aqui.
