Em Reis e Rainha, o roteirista e diretor Arnaud Desplechin coloca, nos créditos finais do filme, o romance O Teatro de Sabbath, de Philip Roth, como uma de suas influências. Não é difícil encontrar a relação entre as duas obras na construção formal. Tanto o livro quanto o longa têm narrativas labirínticas, com meandros que desviam de seu centro e notas de rodapé. Com Decepção, o cineasta adapta o romance autoficcional homônimo do escritor americano, de 1990, e é bastante fiel ao original – inclusive fazendo justiça com o título.
Basicamente, como acontece com frequência nos romances de Roth, a história gira em torno de um homem mais velho, que mantém uma relação com uma mulher bem mais jovem. Aqui são interpretados por Denis Podalydès e Léa Seydoux. Ele é um escritor americano que vive em Londres e ela uma inglesa. Decepção está longe de ser um dos melhores livros do autor – na verdade, é considerado um dos piores, escrito numa espécie de piloto automático – e, por isso, talvez fosse fácil encontrar espaço para melhorá-lo, mas Desplechin, que assina o roteiro com Julie Peyr, opta pela fidelidade.
Podalydès é um grande ator, mas não é um papel para ele. O amante sedutor, o escritor cerebral vivendo um romance tórrido com uma mulher com a metade de sua idade não funciona aqui com ele. Seydoux também faz o que pode com essa mulher que nem nome tem, e procura amor fora do casamento infeliz. Nenhum dos dois está confortável num filme que consiste num falatório pós-coital, que talvez funcionasse melhor no teatro.
No começo do século, Desplechin teve grandes momentos, atingindo seu ápice com Reis e Rainha (2004) e Um Conto de Natal (2008), desde então é um diretor em busca de voltar ao topo, registrando baixos e altos – estes nunca à altura de suas obras-primas. Suas marcas estéticas, como os movimentos de câmera, os cortes e monólogos de personagens, deixaram de existir, e seus filmes se tornaram quase que uma pálida lembrança do que já foram. (O mais novo exemplar, que acaba de ser exibido em Cannes, Frère et soeur, foi vaiado na sessão de imprensa).
A verborragia em francês soa, ao mesmo tempo, estranha e natural. Os diálogos são basicamente as obsessões do escritor americano: que vão do sexo ao antissemitismo. Decepção mantém, para o bem e para o mal, o espírito Rothiano dos anos de 1980, o que deve agradar aos fãs do autor, mas não deve lhe conquistar nenhum novo leitor.
