Dirigido por Gilson Vargas, A Colmeia é um filme de silêncios e estranhamentos. O cenário é uma casa semi-isolada no interior do sul do país, onde vive uma família de imigrantes alemães, na década de 1940. Ao centro do filme, uma família num mundo que não é o seu, presa entre suas antigas tradições e um presente que deságua na violência e incompreensão.
Premiado no Festival Internacional de Zaragoza e cinco Kikitos na mostra gaúcha do 49º Festival de Cinema de Gramado (direção, ator, fotografia, som e arte), o longa prima por sua contenção e uma bela fotografia em tons frios, assinada por Bruno Polidoro. Vargas constrói um longa em seus silêncios, em poucos diálogos e em momentos de desespero dos personagens.
A família é formada pelos pais Bertha (Janaina Pelizzon) e Werner (Rafael Franskowiak), os filhos adultos Kasper (Samuel Reginatto), Uli, (Martina Fröhlich) Lila (Renata de Lélis) e os gêmeos adolescentes Christoffer (João Pedro Prates) e Mayla (Andressa Matos), além da empregada Erika (Thais Petzhold). Nesse pequeno universo, cria-se uma dinâmica de paixões, amores, ódios e explosões que parecem ir além dos laços de família.
O que parecia mergulhado apenas nos pensamentos – ou acontecendo de forma discreta – nessa família começa vir à tona quando Christoffer tem um primeiro episódio de convulsão – algo inexplicável e quase incompreensível ali, especialmente para sua irmã gêmea, de quem ele é bem próximo.
Cada personagem terá seu próprio tempo de desconstrução, e o que, a princípio, parecia uma família centrada, se revela doentia e preconceituosa, fruto de um momento histórico de guerra e repressão, não apenas sexual, até mesmo identitária. Naquela época de II Guerra, os alemães, por exemplo, não podiam falar sua língua. Uma cena em particular também mostra o tratamento dado aos índios na região.
Há claros contrapontos entre as personagens masculinas e femininas, cada grupo num mundo com regras sociais e emocionais próprias, o que gera conflitos internos e externos, além de selar os destinos a partir de seus papeis sociais, que mascaram a força motriz dessa família.
A Colmeia é um filme de força peculiar, em particular em seu visual marcado por tons verdes e um cinza prateado que parece tornar as personagens ainda mais pálidas e de aparência mais doentia do realmente são. Sua abordagem da intolerância e incompreensão, embora situada numa trama do passado, ressoa como temas relevantes para o presente.
