Preso por conta de uma dívida, Rahmin consegue obter uma licença de dois dias. Nesse período, ele tenta convencer seu credor a retirar a queixa, se pagar parte da dívida. Ele conta com a ajuda da namorada, que encontrou uma bolsa com moedas de ouro e sugere que ele venda para obter dinheiro. Mas, a partir daí, tudo se complica.
- Por Neusa Barbosa
- 29/06/2022
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Diretor iraniano de maior prestígio internacional hoje, Asghar Farhadi venceu o Grand Prix do Festival de Cannes e foi o representante oficial de seu país na disputa de uma vaga nas indicações ao Oscar de filme em língua estrangeira com este novo drama moral, Um Herói.
Como é habitual em suas histórias, esta mais uma vez roteirizada por ele mesmo, uma série de conflitos e ambiguidades pontuam a jornada do protagonista, Rahmin (Amir Jadidi). Encarcerado por uma dívida, ele recebe uma licença especial de dois dias para tentar negociar uma solução com seu credor, Bahram (Mohsen Tanabandeh).
Hospedado na casa da irmã e do cunhado, que cuidam de seu filho (Saleh Karimai) após o seu divórcio, Rahmin tem um plano secreto. Sua namorada, Fahrkondeh (Sahar Goldust), encontrou uma bolsa com várias moedas de ouro e eles pensam que sua venda poderá cobrir pelo menos parte da dívida.
É em torno desta venda ou da devolução da bolsa que passa a girar a engrenagem da história, que tem por eixo a discussão do que é a narrativa da verdade, como é construída a reputação pública das pessoas e o efeito devastador das redes sociais na vida cotidiana hoje.
Como sempre, Farhadi conta com intérpretes muito empenhados para jogar com as contradições de seu conto moral, que expõem os interesses nem sempre edificantes de coadjuvantes da trama central, como a administração da prisão onde está Rahmin, preocupada em abafar a má repercussão do recente suicídio de um detento. Entram em cena o ressentimento do credor e de sua filha (Sarina Farhadi), que perdeu seu dote, e até as múltiplas preocupações de uma entidade assistencial que tenta ajudar Rahmin.
Embora seja certamente uma narrativa elaborada, a construção aqui não se mostra tão eficiente quanto em outros trabalhos do diretor, caso de A Separação (2011) e O Passado (2016). Uma razão é a sensação de que o diretor e roteirista tenta artificialmente conter o potencial político de sua história, que afinal trata do sistema judicial em seu país, injetando às vezes um pouco mais de melodrama do que seria necessário - como no caso da gagueira do filho de Rahmin.
Um episódio externo, envolvendo uma acusação de plágio contra o diretor, feita por uma ex-aluna, Azadeh Maridzadeh, criou uma certa polêmica em torno do filme. O caso ainda se encontra sub judice mas, no recente Festival de Cannes, onde integrou o júri, Farhadi destacou ter-se baseado em fatos reais, ocorridos há dois anos, e não no documentário sobre o assunto feito pela aluna. Ele inclusive move contra ela um outro processo, por difamação.
