Um dos filmes mais aguardados na competição no Festival de Cannes 2022, na qual não foi premiado, Crimes do Futuro, do veteraníssimo David Cronenberg, não decepciona na originalidade nem na contundência, para falar de um mundo futuro marcado por todas as nossas contradições presentes, nas quais ele se espelha.
Num tempo de espetáculos no limite do macabro, Saul Tenser (Viggo Mortensen) e Caprice (Léa Seydoux) são os mestres. Ela, uma cirurgiã que faz performances cirúrgicas no corpo dele, dotado da capacidade de desenvolver permanentemente novos órgãos, expostos ao público mesmerizado.
Nesse tempo em que a dor parece não ser mais um problema, projetam-se concursos de beleza interior e a necessidade de um departamento para o registro nacional dos novos órgãos, este capitaneado por outra dupla, Wippet (Don McKellar) e Timlin (Kristen Stewart).
Estes são apenas alguns dos aspectos instigantes de um roteiro que caminha no limite da provocação do sinistro, com a habitual atenção ao design de produção (assinado por Carol Spier). O visual, aliás, combina elementos do antigo e do moderno para retratar esse mundo de pesadelo, que incendeia a imaginação muito depois que o filme terminou, suscitando indagações éticas nada simples - como até onde nos levará a sociedade do espetáculo. Este sim é um inquietante questionamento que as redes sociais têm colocado em dolorosa evidência todos os dias.
Afinal, trata-se de um genuíno Cronenberg, capaz de despertar os instintos de um público de cinema que hoje parece um tanto anestesiado por efeitos especiais e pouca substância. Pode-se até, com justiça, compará-lo a diversos filmes anteriores desse cineasta perturbador, como Gêmeos - Mórbida Semelhança, Crash: Estranhos Prazeres, Spider - Desafie sua Mente ou Senhores do Crime -e, como qualquer outro, este novo pode perder na comparação. Mas é fato que, mais uma vez, o diretor canadense, às vésperas dos 80 anos, continua capaz de sacudir a indiferença, fazendo um cinema produtor de inquietações, até mesmo pesadelos não meramente limitados a produzir sustos ou horror.
Em sua quarta colaboração com o diretor, o ator Viggo Mortensen encarna um personagem um tanto opaco, um digno habitante de um mundo cada vez mais sintético, em que as sensações humanas, inclusive a sensualidade, foram capturadas por uma espetacularização que se empolga mais com um tipo de choque que parece capaz de aniquilar as emoções. No fundo de tudo, resta uma sensação:afinal, o que restou de humano neste mundo?
