Num primeiro momento, Garota Inflamável apresenta sua protagonista, Julie (Natalia Belitski), como uma espécie de personagem excêntrica, que usa o tempo todo luvas de látex amarelas e é piromaníaca. O filme, escrito e dirigido por Elisa Mishto, toma caminhos, no entanto, que tendem a tirar essa figura da zona da mera esquisitice e se aprofundar em sua psique.
Julie é herdeira de uma grande fortuna, administrada por um tutor, que vive da maneira como quer, fazendo o que bem entende e evitando contatos mais duradouros ou laços mais profundos com outras pessoas. De tempos em tempos, é internada numa clínica psiquiátrica, onde, desta vez, será cuidada pela jovem enfermeira Agnes (Luisa Céline Gaffron), uma outra personagem central cuja vida também está um tanto desordenada, tendo vontade de abandonar tudo.
Garota Inflamável evita julgamentos de ambas mulheres: suas vidas chegaram a um ponto de ruptura, não é possível continuar como estão. A estratégia da roteirista e diretora é, no começo, afastar-se dessas figuras, apenas observando-as com curiosidade. Mas, à medida que o filme avança, a dupla vai ganhando humanidade e simpatia.
Uma das qualidades aqui é não psicologizar as personagens, em especial Julie, cuja condição mental e emocional nunca é estigmatizada – pelo contrário, ela é uma jovem num mundo que a sufoca e sua retração é sua saída. Nesse sentido, a aproximação com Agnes, com quem acaba se envolvendo física e emocionalmente, é transformadora e libertadora para ambas.
Mishto não busca aqui algo à la Um estranho no ninho. Não há uma natureza contestadora, revolucionária num sentido social, é a busca pelas transformações nas vidas dessas duas mulheres – o que já é muito num mundo onde os desejos e aspirações femininas costumam ainda ser tão sufocados.
