Sertanejo arquetípico, que guarda as referências de tantos outros personagens do cinema brasileiro, antes e depois do Cinema Novo, João é um homem de falas e comportamentos diretos, que se vê confrontado pela visão de Tahiel, impregnada das culturas ancestrais indígenas do continente, que desestabilizam, de saída, qualquer tom realista, que aliás o filme não pretende.
Montado no seu cavalo, Cruzeiro, e tendo à cinta uma peixeira - mais um sinal de sua antiguidade -, João parece, em mais de um momento, um D. Quixote deslocado de paisagem, tendo em Tahiel seu Sancho Pança de ocasião. Mas o registro dos dois é bem menos cômico do que o de Miguel Cervantes. João e Tahiel são dois seres perdidos entre escombros de construções e seres desfeitos, desagregados, a quem não parece ter restado sombra de empatia - exceto por uma mulher negra, que os acolhe na cidade, numa casa tão precária quanto as roupas e a condição de todos os habitantes. Nesta sequência, o filme transpira um parentesco com a obra de Pedro Costa, com depoimentos desta mulher, contando sobre uma acidentada viagem à Itália, ao encontro das filhas, e um outro homem velho, recordando sua saga solitária entre muitas profissões e longe da família.
