04/07/2026
Drama

Última cidade

Depois de ter sua terra tomada no sertão nordestino, o sertanejo João toma seu cavalo e ruma na direção da cidade grande, em busca de recuperar o que perdeu. No caminho, conhece outro transeunte perdido nas estradas, o latino-americano Tahiel e juntos atravessam uma série de desventuras.

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Distópico e minimalista, Última Cidade, de Victor Furtado, bebe em várias referências e embaralha gêneros a partir de dois personagens, João (Julio Adrião) e Tahiel (Hector Briones). João, um sertanejo que deixou seu lugar, no interior nordestino, para atender a uma convocação na cidade grande, para regularizar sua precária situação fundiária. Tahiel, um latino-americano desvalido, vagando nas estradas e, tanto quanto João, vulnerável diante dos grandes poderes.

Sertanejo arquetípico, que guarda as referências de tantos outros personagens do cinema brasileiro, antes e depois do Cinema Novo, João é um homem de falas e comportamentos diretos, que se vê confrontado pela visão de Tahiel, impregnada das culturas ancestrais indígenas do continente, que desestabilizam, de saída, qualquer tom realista, que aliás o filme não pretende.

Montado no seu cavalo, Cruzeiro, e tendo à cinta uma peixeira - mais um sinal de sua antiguidade -, João parece, em mais de um momento, um D. Quixote deslocado de paisagem, tendo em Tahiel seu Sancho Pança de ocasião. Mas o registro dos dois é bem menos cômico do que o de Miguel Cervantes. João e Tahiel são dois seres perdidos entre escombros de construções e seres desfeitos, desagregados, a quem não parece ter restado sombra de empatia - exceto por uma mulher negra, que os acolhe na cidade, numa casa tão precária quanto as roupas e a condição de todos os habitantes. Nesta sequência, o filme transpira um parentesco com a obra de Pedro Costa, com depoimentos desta mulher, contando sobre uma acidentada viagem à Itália, ao encontro das filhas, e um outro homem velho, recordando sua saga solitária entre muitas profissões e longe da família.

Ex-integrante do grupo Alumbramento, Victor Furtado traz em seu longa inicial a marca da inquietação diante de vários temas - o desenvolvimento urbano desenfreado, a desigualdade crônica, a violência urbana, a invisibilidade social de grupos minoritários ou socialmente desprezados, o trabalho precário, a desumanização e muitos outros. É o tipo do filme que chega para fazer provocações ao imaginário de seu público e não proposições fechadas, num tempo em que as certezas parecem mesmo fora do alcance da mão.
 

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