Diretor de carreira tardia, Davide Del Degan estreia na ficção com este longa, que parte de um argumento seu e, de saída, desafia a lógica e mistura os gêneros, imaginando o encontro acidental, numa aldeia na fronteira entre Itália, Eslovênia e Áustria, entre um denunciante de assassinato mafioso e o denunciado, ou seja, o matador.
Potencial cômico e dramático não falta a esta situação, que ocorre na remota Sauris di Sotto, vilazinha coberta de neve nos Alpes italianos, entre Calogero (Vincenzo Nemolato), o denunciante, e outro Calogero (Giovanni Calcagno). Num lugarejo em que se falam as três línguas da tríplice fronteira e todo mundo se conhece pelo menos de vista, não é difícil para o primeiro Calogero identificar a chegada de um compatriota - cuja face, aliás, lhe recorda sua denúncia, que acarretou seu deslocamento da Sicília natal a este fim de mundo serrano, desterrado como único habitante de um hotel totalmente vazio, ironicamente batizado como Paradise.
O filme extrai elementos de medo e tensão com a chegada do segundo Calogero, que cria a expectativa no primeiro de que seus dias estão contados e que não lhe valeu nada o impulso de colaboração com a justiça, que o colocou no programa de proteção de testemunhas. Que proteção é essa que o põe na mira do assassino?
O roteiro, assinado por Andrea Magnani, no entanto, revela a disposição de explorar mais a fundo os limites entre o thriller e a comédia, colocando os dois Calogeros no mesmo barco, ou seja, como testemunhas protegidas pelo governo que somente a confusão do sistema houve por bem colocar no mesmíssimo lugar.
Estabelecida a situação absurda, esboça-se uma forma de convivência que aponta possibilidades de troca entre duas pessoas que, apesar do mesmo nome, são tão diferentes no físico e na personalidade, como um Gordo e o Magro revisitados em outro contexto.
Se caminha razoavelmente bem criando situações no limite do humor negro - além da comicidade infame da dança local, a Schuhplattier, e seus tapas nas coxas e nádegas dos participantes -, já não vai tão bem a história ao delinear de maneira tão pífia suas personagens femininas. Especialmente a mulher do primeiro Calogero (Selena Caramazza), que bem poderia ter mais bem explorada sua resistência a juntar-se ao marido na aldeia nevada. Por conta disso também, a virada que se esboça na parte final é particularmente mal-engendrada, reiterando uma veia meio machista que não nada de engraçado. .
