O filme começa com um nascimento. E é pela voz dessa criança, em off, que se dá a introdução à história de Ela e Eu, de Gustavo Rosa de Moura, um melodrama familiar conjugado nas notas da sutileza, embora com tanto material para carregar nas notas do drama.
Do nascimento, resultou uma menina, Carol (quando adulta, interpretada por Lara Tremouroux), e um coma de 20 anos para a mãe, Bia (Andréa Beltrão). Um trauma que se inseriu na vida da família, formada pelo pai, Carlos (Eduardo Moscovis) e sua nova mulher, Renata (Mariana Lima), à qual se incorpora a indispensável presença da cuidadora de Bia, Sandra (Karine Teles).
O arranjo, que durou por duas décadas, é subitamente desmontado quando Bia acorda de repente. Toda a tensão, subjacente na família e que parecia nunca assumida, transborda diante do fato novo, que transforma o confronto em inevitável - e é isso o que o filme parece querer evitar o tempo todo.
Bia é uma personagem desafiadora e Andréa Beltrão se esmera em captá-la por todas as formas sutis - olhares, gestos e a dolorosa retomada do controle de um corpo que às vezes parece não ser mais seu.Não só o corpo, a casa também não é mais aquela que deixou quando sofreu o trauma. Ali há uma outra mulher, Renata, que foi quem viveu ao lado de seu marido e criou sua filha - que inclusive a chama de mãe. Voltando Bia, Renata sente que perdeu espaço, ao mesmo tempo que está impedida de brigar contra uma espécie de contendora fragilizada, que não é mais a mulher de Carlos mas também não vai sair de sua vida. Como lidar com isso?
Diante do impasse, parece que o filme hesita em delinear mais a fundo esse conflito, não dando muita chance a Renata de expressar o seu lado Bia, por sua vez, se conforma - talvez demais - na sua nova identidade, que é de acomodação à perda de sua antiga pessoa, uma espécie de aprendizado da dor. Salva-se o relacionamento com a filha, a única que parece genuinamente feliz com a volta desta mãe, com que ela sonhou a vida toda. Carol, mais do que ninguém, pode participar ativamente da reconstrução da persona desta mãe, amparando-a, ensinando-a a falar de novo, lembrando-a do passado nas fotografias.
Renata e Carlos não têm a mesma sorte. Para ele, a volta de Bia é a erupção de uma das dores que ele pensava já ter domado - e há nisso algo de irreversível, captado numa sensível cena entre ele e Bia, que ensaia um beijo. Para Renata, esta volta, por mais generosa que ela seja, representa a invasão de uma intrusa que, mesmo inocente, pode roubar-lhe tudo, marido, filha, toda a vida que ela conheceu enquanto Bia dormia Tudo muito difícil, mas o filme parece temer ir a todos os lugares emocionais que poderia ir, contendo-se como que com temor de derramamentos emocionais excessivos. Uma escolha da direção, certamente, mas que retira parte do potencial da história, inegavelmente forte e envolvente.
Num filme com um elenco tão fino e engajado de atores, certamente não faltam atrativos para o público. Andréa Beltrão, muito conhecida por sua verve cômica, aqui se expõe num registro dramático, desprovida de charme, cheia de vulnerabilidades, dando chance à atriz de mostrar seu talento nesta outra chave. Não ficam atrás Eduardo Moscovis e Mariana Lima, a quem, no entanto, o papel poderia ter dado um pouco mais de substância, notadamente a ela. Lara Tremouroux é uma boa surpresa no papel da jovem Carol, que dá liga a esta família estremecida.
Andréa Beltrão contou em entrevista que recusou a história num primeiro momento, quando o diretor pretendia fazer uma comédia. Foi um acerto não enveredar por aí, porque a situação-chave é dramática demais para ser realmente cômica. No entanto, eventualmente, algumas pitadas de humor poderiam ter caído bem em algumas situações. Prevaleceu a delicadeza, porém, e isso é de elogiar. Não caberia mesmo uma abordagem descabelada, poria tudo a perder.
Outro acerto é uma trilha sonora refinada, pontuada por joias como João e Maria, na voz de Chico Buarque de Holanda, e Ela e eu, com Caetano Veloso.
