Sempre foi curioso como os romances de Reinaldo Moraes são profundamente imagéticos, mas nunca haviam sido adaptados para o cinema. Pornopopéia, de 2009, talvez seja um exemplo claro, numa saga sexual no submundo de São Paulo, repleta de humor ácido e tipos bizarros. Maior que o mundo, cuja primeira parte foi publicada em 2018 (e a segunda ainda é inédita), segue na mesma linha, mas sua transposição para o cinema tem uma história curiosa: o escritor fez um roteiro e depois o transformou em romance. De qualquer forma, os resultados finais deixam claro que a obra de Moraes, possivelmente, funciona melhor no papel do que na tela.
Com direção de Beto Marquez, e roteiro assinado pelo escritor (em colaboração e adaptação de Ana Reber e Lusa Silvestre), o longa tenta ser uma espécie de homenagem ao cinema marginal paulista dos anos de 1980, mas existe uma linha fina entre a homenagem e a paródia involuntária que parece desconhecida aqui. Maior que o mundo resulta num filme anacrônico, que não é bem-sucedido em transpor elementos e temas do passado para o presente, e assim nasce velho.
O submundo que retrata parece mais típico de algumas décadas atrás do que o presente no qual está situado, assim como os personagens, que não parecem em sintonia com o tempo em que vivem. Kbeto (Eriberto Leão) teve sucesso quando publicou seu primeiro, e (até agora) único livro. Enquanto a inspiração não vem, ele passa o tempo no bar ao lado de seu amigo Kim (Lucas Miagusuku), Mina (Luana Piovani), com quem eventualmente passa a noite, e sua nova fã, Audra (Gabi Lopes). O quarteto serve como pretexto para uma orgia, ainda no começo do filme, cuja nudez feminina gratuita lembra mesmo o Cinema Marginal.
O fio da narrativa acompanha Kbeto com bloqueio que só é rompido quando encontra o diário de um anão de circo, que se tornou amante da auxiliar do mágico, com quem era casada. Depois de matarem o marido dela, eles fogem e ela se prostitui para sustentar o amante, que se tornou seu cafetão. Dessa história, o escritor tira seu segundo romance, que se transforma num sucesso novamente.
Maior que o mundo não tem muito para onde ir além das aventuras e desventuras sexuais do protagonista, que usa a literatura (também marginal) para conseguir mulheres. Há também algumas cenas grotescas, como quando ele toma dois viagras e fica com uma ereção persistente, ou uma quase overdose de uma personagem na cama, é óbvio.
Maior que o mundo é um longa o tempo todo barulhento, sem respiros, cujo fôlego vai se esvaindo. Quando entra em cena o anão (Giovanni Venturini) autor do diário, com uma arma em punho clamando seus direitos, o filme já acabou faz tempo – ao menos, é a sensação que fica.
