04/07/2026
Drama Ação

A Mulher Rei

Em 1823, o reino africano do Daomé (hoje Benin) era protegido por um batalhão de elite feminino, as Agojie, lideradas pela intrépida general Nanisca. Protegendo o jovem rei, Ghezo, elas devem garantir a integridade de um reino acossado por outro império, o Oyo, que ameaça conquistá-lo e submeter as guerreiras.

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Dirigido com verve por Gina Prince-Bythewood (The Old Guard) e estrelado com energia ímpar por um elenco encabeçado pela magnética Viola Davis, A Mulher Rei é um filme que parece destinado a romper barreiras. Procura situar-se no melhor de dois mundos, criando uma história, baseada em fatos reais, sobre um grupo de impávidas guerreiras africanas, cuja valentia e complexidade emocional têm tudo para torná-las personagens inesquecíveis e inspiradoras de sagas semelhantes. Tudo isso sem deixar de ser entretenimento de alta voltagem.
 
A entrada em cena das guerreiras Agojie é memorável. Na primeira sequência, elas estão ocultas na floresta, à espera de atacarem um grupo de homens que descansam num acampamento. Uma revoada de pássaros avisa de que há alguém entre as árvores e eles se preparam. Mesmo assim, o ataque das guerreiras é avassalador, potente, sangrento, ainda que, do lado delas, também haja baixas, tingindo de sangue mais esta vitória a favor do reino do Daomé, no ano de 1823.
 
De volta ao reino, o batalhão é recebido com respeito e temor. A maior parte dos cidadãos não ousa elevar os olhos para as guerreiras, que integram a guarda especial do rei Ghezo (John Boyega) e moram dentro das muralhas de seu palácio, num alojamento especial para elas. Sua comandante é a general Nanisca (Viola Davis), que merece do rei atenções que despertam ciúmes até de sua esposa favorita, Shante (Jayme Lawson), além de ter, sobre essa e as outras esposas, precedência de ser ouvida nos conselhos. 
 
Baseada num roteiro de Dana Stevens, a partir de um argumento de Maria Bello, o filme de Prince-Bythewood vibra em cada nota para compor o universo complexo em que se movem estas guerreiras, que, por sua condição, devem renunciar a qualquer vida pessoal, incluindo casamento, maternidade e família, em favor da dedicação exclusiva à luta para proteção de um reino que, na época, acumulava conflitos, como contra o império Oyo. As Agojie eram sua arma secreta e intimidavam os inimigos por sua bravura e tenacidade.
 
Mesmo que Viola Davis predomine como a comandante deste febril batalhão desafiado por guerras cada vez mais complexas, há inteligência o bastante do roteiro e da direção para individualizar outras personagens, permitindo um melhor retrato das Agojie e a conexão do público. É o caso de Amenza (a ugandense Sheila Atim), a fiel lugar-tenente da general, e também da intrépida Izogie (Natasha Lynch), que toma para si a tarefa de treinar novatas como a impulsiva Nawi (a sul-africanaThuso Mbedu). 
 
Dispensando a atenção que se espera das batalhas, o filme se apóia também em conferir uma certa complexidade emocional às relações entre as guerreiras e alguns personagens em seu entorno. Humaniza bastante Nanisca seu conflito interior com traumas de abuso no passado e seu inconciliável desejo de vingança contra o general inimigo, Oba Ade (o nigeriano Jimmy Odukoya). As transgressões de Nawi também fornecem material para que se insinue algum romance, no caso, com Malik (Jordan Belger), filho de uma mulher do Daomé que veio ao país com o português Santo Ferreiro (Hero Fiennes Tiffin), um mercador de escravos do Brasil. Neste segmento, aliás, Malik e Santo falam português, bastante digno no caso de Fiennes, um tanto enrolado no caso de Belger.
 
Colocando em foco o fato histórico de que parte da riqueza do Daomé era obtida pela venda de prisioneiros de guerra como escravos aos mercadores europeus, o filme acrescenta à aventura uma camada de gravidade ética muito oportuna. Nanisca, inclusive, procura convencer seu jovem rei a abrir mão desse comércio nefasto, substituindo-o pela troca de mercadorias como o azeite de dendê. 
 
Filmado na África do Sul e com elenco integrado por vários atores do continente, o filme obtém a dose exata de autenticidade, sem abrir mão do componente heroico e fantástico que torna míticas essas lendárias guerreiras. Valores como o desenho de produção de Akin McKenzie, figurino de Gersha Philips e penteados de Louisa V. Anthony contribuem para o êxito da produção, que não dispensa efeitos especiais nas encarniçadas batalhas - aspirando, assumidamente, ladear-se a épicos como Coração Valente, Gladiador e O Último dos Moicanos com um toque protofeminista e negro. Tem tudo para conseguir. 
 
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