14/06/2026

Após a morte misteriosa de seu pai, causada por pequenos objetos que caíram do céu em alta velocidade, OJ resolve vender o rancho onde moram e treinam cavalos para comerciais e filmes. Mas uma descoberta surpreendente pode fazê-lo mudar de ideia.

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Lá pela metade de Não! Não olhe!, uma personagem central do filme, num show bem peculiar envolvendo um cavalo e um suposto disco voador, diz ao seu público que “em uma hora vocês sairão daqui depois de ter testemunhado um espetáculo.” O fato de que dessa cena ao final, o novo trabalho de Jordan Peele leve exatamente uma hora, faz perguntar se o personagem se refere ao seu show ou ao filme em si, e diz muito sobre o que o diretor está interessado aqui: a espetacularização da vida contemporânea.
 
O terceiro filme do cineasta é, acima de tudo, sobre a sociedade do espetáculo do século XXI – algo que faria o pensador francês Guy Debord orgulhoso. Mais do que a uma possível invasão alienígena, Peele, que também assina o roteiro, pergunta como reagimos ao presente constantemente filmado, potencializando a fama e a fortuna de pessoas anônimas. Câmeras estão no filme o tempo todo – desde celulares às de segurança, passando até por uma primitiva que funciona com uma manivela manual.
 
Investigar o presente não é novidade para Peele e, sendo um cineasta negro e interessado nas questões de raça e identidade, isso se tornou um ponto central em seus dois primeiros filmes: Corra! e Nós. Aqui, a temática se dá de forma mais sutil, mas não menos contundente: o ponto que lhe interessa é o apagamento de figuras negras na história. Os personagens principais do longa, um treinador de cavalos chamado OJ (Daniel Kaluuya) e sua irmã, a aspirante a atriz/celebridade Emerald (Keke Palmer), são descendentes de um jóquei que, há mais de um século, ficou eternizado nas primeiras fotografias colocadas em movimento – um “filme” de segundos com ele montado em seu cavalo.
 
Se em seus dois longas anteriores Peele, que ficou famoso atuando em esquetes de humor ao lado de Keegan-Michael Key, tinha um enquadramento mais intimista, aqui assume proporções épicas num filme rodado em IMAX e que deve ser visto, preferencialmente, nos cinemas, com sua grandiosidade de imagens e da narrativa sagaz.
 
O filme começa com um prólogo – novamente situado na sociedade do espetáculo – , com o set de um programa de televisão, no final dos anos de 1990, quando um macaco, numa sitcom, enlouquece e mata parte da equipe com quem trabalhava em cena. O plot será retomado novamente quando um ator-mirim sobrevivente, Ricky (Steven Yeun), agora um empreendedor dono de um parque temático, mostra um museu devotado à tragédia. O que Peele quer dizer com essa história e como isso se junta à nave espacial rondando o rancho de OJ? Tudo é especulação, mas o mais provável é que tenha a ver com a ilusão de que animais possam ser domados, até que sua natureza venha à tona. Dizer mais do que isso sobre o filme já é um spoiler.
 
A questão é que seja OJ – a referência dessa iniciais a outro homem negro famoso não passa despercebida – e Emerald, ou outros personagens, como Angel (Brandon Perea), funcionário de uma loja de departamentos, ou o diretor de fotografia Antlers (Michael Wincott), todos estão atrás da imagem perfeita que poderá redefinir seu futuro, financeiro ou artístico.
 
O pai (Brandon Perea) de OJ e Emerald morreu quando estranhos objetos caíram do céu, como moedas e chaves, atravessarando seu crânio e cortando sua garganta. O rapaz cogita vender o rancho, mas quando vê um estranho objeto no céu, pensa em vingar a morte do pai contra seja lá o que está rondando no céu.
 
O que há no clímax de Não! Não olhe! é puro cinema espetáculo de Hollywood, com grandiosidade, verve, e uma criatura cujo design é impressionante como há muito não se via. Peele sabe como orquestrar os diversos elementos que vai construindo calmamente, até chegar no ponto alto, novamente, quando a tecnologia e o espetáculo se juntam para a conclusão do longa que, mais uma vez, remete às imagens do jóquei em movimento que Eadweard Muybridge criou em meados do século XIX.
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