04/07/2026
Drama

Pacificado

Tati tem 14 anos, vive com a mãe, Andreia, no Morro dos Prazeres, no Rio. O pai, Jaca, era o chefão do tráfico local mas está preso há anos e Tati nem mesmo o conhece. A iminente libertação dele coloca toda a comunidade em alvoroço, já que desperta a inquietação do novo e violento chefe local, Nelson.

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Vencedor de três prêmios em San Sebastián em 2019 - melhor filme, ator (Bukassa Kabengele) e fotografia (Laura Merians Gonçalves), Pacificado, do norte-americano Paxton Winters, revisita a tensão das favelas cariocas às vésperas das Olimpíadas de 2016.
 
O título alude ao processo de “pacificação” das favelas, com a instalação das UPPs, já com um viés crítico dessa ocupação, em geral violenta, das comunidades, por uma polícia não raro despreparada e com muita sede de sangue.
Mas o foco do roteiro, assinado por Winters, Joseph Carter e Wellington Magalhães, está mais colado a um grupo de personagens do Morro dos Prazeres, cenário da história e onde o diretor/roteirista morou por alguns anos. Esse “olhar de forasteiro” lhe concede uma atitude de bom observador, procurando captar ambiguidades e dilemas sem pretender vilanizações ou julgamentos apressados. É um bom começo.
 
A partir da garota Tati (Cássia Gil), apresenta-se o ambiente. Adolescente, ela vive com a mãe viciada, Andréia (Débora Nascimento), mulher um bocado descuidada com a filha e consigo mesma pelos desacertos de sua vida. Sem profissão ou renda, ela se apóia na família de Jaca (Bukassa Kabengele), pai de Tati, um chefe do tráfico que cumpre uma longa pena de cadeia. A avó dele, dona Preta (Léa Garcia), garante algum afeto a Tati. Dudu (Raphael Logan), irmão de Jaca, dá dinheiro e alguma droga a Andreia, mantendo esse círculo vicioso funcionando.
 
O Morro agora está sob o comando de um novo chefão, Nelson (José Loreto), mais jovem e muito mais impulsivo e violento para intervir nos conflitos da comunidade. Por isso, a  iminente libertação de Jaca provoca sentimentos diferentes. De um lado, moradores que vêem com esperança a volta de um antigo líder de comportamento mais ameno. De outro, Nelson e seus associados, temendo a concorrência de Jaca e já tramando contra ele.
 
Pacificado capta bem esse clima de comunidades pobres, com laços extremamente coesos, que sofrem com as constantes invasões da polícia e não conseguem livrar-se da dependência dos chefes do tráfico. É uma situação infernal, cujo preço todos, a seu modo, pagam. O filme é eficiente em mostrar como esses moradores, na verdade, têm poucas escolhas nesse contexto. E vai mais longe do que simplesmente tentar fazer uma separação maniqueísta entre “mocinhos e bandidos” que não cabe.
 
Um aspecto complicado em toda essa engenharia dramática é ter colocado sobre os ombros da personagem Tati uma carga tão ampla, como observadora de tudo o que se passa a seu redor - especialmente tendo em vista a inexperiência da atriz Cássia Gil, que aqui faz sua estreia. Ela concede à personagem uma interpretação naturalista, eventualmente sutil até demais. No Festival de Havana 2021, a atriz recebeu o prêmio Coral de melhor atuação.
 
Comparado com outros exemplares dos chamados “filmes de favela”, um subgênero que proliferou na esteira do sucesso mundial de Cidade de Deus (2002), Pacificado tem a sua função e seu lugar, expressando com êxito a complexidade de um personagem como Jaca - uma interpretação densa do ator congolês radicado no Brasil Bukassa Kabengele.Ele é o epicentro de uma tragédia social que não tem encontrado soluções, seja nos morros cariocas, seja na periferia de outras grandes cidades brasileiras. Por isso, o filme, que demorou para chegar às telas, atropelado pela pandemia, ainda tem muito o que dizer.
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