Nem sempre é simples para um dramaturgo fazer um filme. Certas convenções do teatro acabam se tornando amarras no cinema, minando as possibilidades da obra. O risco é maior ainda quando se adapta uma peça de sua própria autoria. Felizmente, esse não é o caso de Stephen Karam, uma das vozes mais interessantes do teatro norte-americano contemporâneo, que estreia no cinema com a transposição de sua peça The Humans.
Por natureza, esse não é um filme de terror, mas se torna à medida em que desvenda a condição humana por meio de uma família reunida para o jantar de Ação de Graças, no novo apartamento, em Chinatown, Nova York, da caçula do clã, que acaba de se mudar com seu companheiro. Karam mantém a claustrofobia da sua peça com a ação confinada a um único ambiente, e usa isso em favor do filme. Sem flashbacks, sem respiros, a narrativa se dá quase em tempo real.
A caçula é Brigid (Beanie Feldstein, luminosa aqui), que com Richard (Steven Yeun), está se mudando para um apartamento pequeno em Nova York, num conjunto habitacional antigo e mal-cuidado. O casal, no entanto, está feliz, e a família também compartilha do sentimento por eles.
No jantar, estão reunidos o pai dela, Erik (Richard Jenkins), a mãe, Deirdre (Jayne Houdyshell), a irmã mais velha, Aimee (Amy Schumer), e avó paterna, Momo (June Squibb), que se locomove numa cadeira de rodas. É óbvio que, a certa altura, todos os traumas e ansiedades da família virão à tona, no apartamento que, e cada momento, revela um novo problema – em especial as luzes que, uma a uma, vão se apagando.
Tanto no palco, como na tela, The Humans apresenta uma engenhosa narrativa de sobe e desce nas escadas – o banheiro fica no andar de cima, o que obriga, toda as vezes que a avó precisa precisa usá-lo, sair do apartamento, subir pelo elevador até uma porta no andar de cima. O cenário, projetado por David Gropman, mais do que o ambiente onde se dá ação, é um personagem em si, que Karam filma com closes e detalhes da mesma maneira como o faz com as figuras humanas. A cena final é primorosa nesse sentido.
Entre os traumas da família, está o de Erik, que quase morreu no 11 de Setembro, quando acompanhava Aimee a uma entrevista de trabalho em Manhattan e planejava visitar o World Trade Center enquanto a esperava, no fatídico dia. Novas feridas pessoais emergem ao longo da reunião, como os problemas intestinais sérios de Aimee, que a obrigam a tirar longas licenças e ameaçam seu emprego, além de ter levado um fora da namorada; ou a religiosidade exacerbada de Deirdre e problemas financeiros em geral da família.
Diretor de primeira viagem, Karam se cercou de uma equipe técnica eficiente para ajudá-lo a construir um filme potente, em especial na fotografia do inglês Lol Crawley (45 anos, A infância de um líder), que tira o máximo da claustrofobia do ambiente filmando closes igualmente claustrofóbicos do personagens. O destaque também é para o elenco impressionante na capacidade de trazer as nuances das personagens, principalmente Jayne Houdyshell, a única atriz da montagem teatral da peça que foi mantida no filme.
