04/07/2026

Combinando documentário e ficção, o filme retrata um grupo de espeleologistas (especialistas em cavernas), que, no começo da década de 1960, descem num dos maiores buracos naturais do mundo, o Abismo de Bifurto, situado na Calábria, no sul da Itália.

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Mais de uma década depois de As quatro voltas, o novo filme do italiano Michelangelo Frammartino era aguardado com ansiedade. Il Buco estreou no Festival de Veneza de 2021 e saiu de lá com três troféus, entre eles, um merecido Prêmio Especial do Júri, além de um outro para o operador de câmera, Luca Massa. Como no longa anterior, a natureza tem um papel central na narrativa e nas imagens – estas, mais uma vez, impressionantes e de beleza única.
 
Os filmes de Frammartino são de difícil classificação. Eles têm um algo de documental, mas, ao mesmo tempo, são narrativos e ficcionais, ao menos em parte. São um tipo de fera gentil cada um ao seu modo, com um tempo próprio, seguindo o curso da natureza, sem apressar as coisas – da mesma forma como o diretor parece fazer cinema.
 
O buraco do título original está situado na região do Maciço Polino, na Calábria, no sul da Itália, e é considerado o 3o maior buraco natural do mundo. A fenda no solo é monumental. Olhando-a de longe, não parece tão profunda, mas, como o filme mostra, ela desce por meio de cavernas e sistemas que chegam às profundezas da Terra.
 
O filme se passa nos anos de 1960, quando um grupo de espeleólogos investigam a formação. Conhecido como Abismo de Bifurto, o buraco tem quase 700 metros de profundidade, para a alegria da equipe que se deleita em suas descidas, subidas e investigações lá dentro.
 
Il buco é aquele tipo de filme que algumas pessoas classificam como “em que nada acontece”, mas não poderia haver uma presunção mais errônea. Em primeiro lugar, o que acontece no longa é a vida seguindo seu curso natural – independente das profundezas do Abismo. No pequeno vilarejo, as árvores são acariciadas pelo vento, os animais pastam e um pastor idoso observa a natureza com seu rosto marcado pela passagem do tempo.
 
O grupo de jovens espeleólogos chega trazendo frescor e agitando a vida calma do local. Logo eles estão instalados com suas barracas nos arredores do buraco. Alguns descem para fazer a pesquisa, outros ficam do lado de fora dando assistência. Dois deles chutam uma bola de um lado para outro, jogando-a por cima do buco. Outros dormem, esquecidos de que precisam puxar os colegas de volta para a superfície.
 
A narrativa se divide, então, em duas linhas: os pesquisadores e o buraco, e a vida do pastor idoso, que parece estar chegando ao fim. Frammartino não se interessa em longos diálogos ou explicações, ele confia no poder das imagens e, dessa forma, seu filme é um feito impressionante – especialmente nas sequências dentro da caverna no fundo do Abismo.
 
Em suas primeiras cenas, Il buco mostra imagens de arquivo, num aparelho de televisão antigo, com uma reportagem sobre um homem que lava janelas num arranha-céu em Nova York. Ele confessa que gosta de seu trabalho pois pode observar as pessoas trabalhando. “Esquecendo de que ele também está trabalhando. Aqui eu também estou trabalhando. É meu trabalho trazer a plateia comigo”, complementa o repórter. O que parece ser exatamente a mesma ideia de Frammartino quando faz um filme. 
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