De minimalismo em minimalismo, o diretor e roteirista sul-coreano Hong Sang-soo vai montando suas caixinhas de música cinematográficas, o que é a metáfora mais próxima de um estilo que extrai grandes escolhas de pequenos fatos cotidianos, nas vidas de pessoas comuns.
Sang-soo ganhou um Urso de Prata em Berlim 2021 pelo roteiro deste seu Encontros, mais uma miniatura em preto-e-branco que se passa em três tempos - cujo deslocamento interno é sutil, numa costura quase invisível e que exige atenção.
A história parte com Young-ho (Shin Seok-ho), jovem de 20 anos, que há muito não vê o pai, médico acupunturista (Kim Young-ho), e vem encontrá-lo no consultório, a seu pedido. A namorada de Young-ho, Ju-won (Park Mi-so), é despachada para um café próximo, enquanto o rapaz procura o pai. No consultório, um dos clientes é um ator famoso (Ki Joo-bong), que terá participação em outro momento.
Nada de muito especial aparentemente se passa - nem mesmo sabemos do que tratará a conversa entre pai e filho - mas é com a enfermeira (Ye Ji-won) que o rapaz trocará um dos poucos abraços do enredo. A ausência é sempre um indicador de alguma das muitas pistas que Sang-soo espalha sem alarde pelo caminho.
Em outra sequência, Ju-won terá se mudado para Berlim, onde estudará moda e será hospedada por uma artista plástica (Kim Min-hee, a musa e parceira do diretor), amiga da mãe da moça (Seo Young-hwa). Nesta passagem de tempo, nota-se outra fase da relação entre Ju-won e Young-ho, que chega intempestivamente, de surpresa, para visitá-la.
No terceiro capítulo, Young-ho, acompanhado de um amigo (Ha Seong-guk), vai ao encontro da mãe (Cho Yun-ho), que está num restaurante com o ator famoso. O objetivo é uma conversa com o jovem, que desistiu da carreira de ator, deixando a mãe inconformada.
São pequenos incidentes, pequenos motivos, mas todos se desdobram num panorama maior da vida de cada um, tomando rumos que levam alguns para longe dos outros, sem uma grande nota dramática. Há poucas explosões emocionais nos filmes deste diretor. Neste caso, um protesto veemente do ator contra os motivos de o jovem ter abandonado a atuação, uma reação movida também pelo abuso do soju, a bebida coreana que costuma ser uma presença constante nas mesas postas diante das câmeras por Sang-soo.
Uma discreta melancolia se infiltra no entrelaçamento destas histórias, com poucos abraços, nenhum beijo, alguns apertos de mão e outra efusão, na sequência em que Young-ho, desafiando o frio, decide mergulhar na praia diante do hotel em que sua mãe está hospedada. Nesta cena, talvez, esteja o coração de um filme que se lança mais a delinear as procuras do que a promover realmente as chegadas a um destino. O título original, Introduction, parece mais revelador da intenção do diretor de retratar o momento da juventude, o ato de parar no ar antes de mergulhar, como dizia uma velha canção de Caetano Veloso, antes que a vida adulta se instale.
