Há uma velha máxima que diz “O que acontece na cozinha, fica na cozinha”. Philip Barantini, diretor do drama O Chef, não acredita muito nessa ideia num filme que descortina sem pudor os bastidores de um restaurante de Londres numa das noites mais lotadas do ano, num dia próximo ao Natal.
O título nacional, O Chef, no entanto desvia a atenção do conjunto para se concentrar na figura-central aqui. Talvez Panela de Pressão fosse um título mais honesto para um filme no qual tudo parece prestes a explodir. Barantini que escreveu o roteiro com James Cummings segue o trabalho do chef, da sous-chef, dos cozinheiros e cozinheiras, ajudantes e garçons e garçonetes em tempo real, num único plano de pouco mais de 90 minutos num serviço conturbado do restaurante.
Stephen Graham assume o posto de chef com verve e energia num papel de um homem à beira de um colapso mental e físico. Ele, que se chama Andy, se separou há dois meses, e só agora conseguiu encontrar um apartamento para morar – dormia no escritório do restaurante às escondidas. Quando chega para trabalhar nesse dia, descobre que o estabelecimento perdeu 2 estrelas – agora tem apenas 3 – por questões sanitárias, e daí em diante é ladeira abaixo.
Graham comanda o espetáculo com sagacidade e fala rápida que impressiona, mas é Vinette Robinson, como sua parceria de trabalho, Carly, que rouba a cena. Ela é a personagem mais centrada aqui, que segura a cozinha nos momentos de crise de Andy, comandando os empregados e empregadas, e cuidando para que tudo saia com esmero – especial porque um chef celebridade (Jason Flemyng) e uma crítica gastronômica (Lourdes Faberes) estão numa das mesas.
O Chef é um filme-coral que tenta dar pequenos momentos de protagonismo também a personagens secundários, e, assim, descobrimos que o assistente ( Taz Skylar) da chef confeiteira (Hannah Walters) tem problemas emocionais, vemos uma jovem garçonete (Lauryn Ajufo) sofrendo ataques racistas de um cliente, e também o drama da gerente/herdeira (Alice Feetham), que não tem a menor noção de como funciona uma cozinha e um restaurante; ou um rapaz (Daniel Larkai) que vai pedir a noiva (Rosa Escoda) em casamento na mesa 13 durante o jantar – mas é preciso que a cozinha preste atenção, ela tem alergia a nozes, e isso não está no sistema. Não é surpresa o que vai acontecer.
Longas em tomada única correm sempre o risco de caírem numa espécie de fetiche de ausência de corte, do feito técnico ser maior que o filme em si. Embora exista esse certo exibicionismo técnico é inegável que o uso do artifício aqui não é gratuito, e Barantini consegue convergir toda a pressão daquela cozinha (e do salão também) por meio da forma como constrói e filma. Esse é um filme propenso a causar ataques de ansiedade dado o seu potencial dessa panela de pressão com pino entupido que inevitavelmente irá explodir.
